Rádio Cidade – o bom filho à casa torna

Radio Cidade 4 anos

Em 1o de maio de 1977, Dia do Trabalhador, era inaugurada a Rádio Cidade, primeira Rádio jovem do FM carioca. Revolucionária por origem e exemplo de inovação no Rádio até hoje, ela fez do dial 102,9 sua estação por quase três décadas. Em março de 2006, porém, ela deixaria órfãos milhares de ouvintes que a tinham como companheira fiel nas horas mais variadas do dia. No período que se seguiu, a Rádio manteve sua sobrevida na internet, sob o nome de Cidade Web Rock, mas sem o mesmo prestígio.

O dial 102,9 em 06 de março de 2006 passa a pertencer a OI FM, constituída pela maior operadora de telefonia fixa e móvel do país, a Oi (ex-Telemar). Surge uma nova forma de fazer Rádio, com interatividade através de telefonia celular. Na virada do ano para 2012, quem sintonizou o dial passou a ouvir o novo prefixo: “Rádio Verão FM”. A mudança significava o fim do contrato entre o Grupo Bel e a operadora de telefonia Oi, que marcou uma das primeiras operações de Rádio customizada no Brasil.

De março de 2012 até outubro de 2013, o dial passa a ser ocupada pela Jovem Pan 2 FM, mas devido a problemas financeiros, voltou a ficar vago.

Com o dial 102,9 FM vazio novamente, teve início no twitter uma campanha capitaneada pelo músico Tico Santa Cruz, que pedia a volta da rádio à sua antiga casa. O #voltaradiocidade, rapidamente, ganhou adesão nas redes sociais e a “Rádio Rock”virou motivo de burburinho nos corredores da Rádios.

E, finalmente, no dia 10 de março, a Rádio Cidade voltou a operar no dial carioca, em 102,9 FM, e com uma nova logomarca escolhida pelo público. A decisão do retorno foi tomada pelo grupo que controla a emissora carioca e ainda a Rádio JB FM – 99,9.

Mas, o que esperar dessa nossa fase da Rádio Cidade? Que bons ventos a aguardam a partir de agora? O que pensam os antigos ouvintes a esse respeito? Com vocês, um pouco da história dessa rádio que, não apenas inovou o modo de se fazer Rádio no Rio e em todo o Brasil, como também influenciou muitas gerações.

E NASCE UMA ESTRELA
Em 1976, o Jornal do Brasil adquiria a Rádio Jornal Fluminense, de Niterói, com o intuito de levar o transmissor para o Sumaré, no Rio de Janeiro. Fernando Veiga, então superintendente geral, pediu que fossem apresentadas cinco propostas de Rádios. Dentre os três projetos principais, um se destacou mais do que os outros: era a Rádio Cidade de Carlos Townsend!

carlos townsend

Townsend acabara de voltar dos EUA e trazia em sua bagagem o encanto pelo dinamismo das Rádios americanas. Por essa razão, o modelo apresentado por ele vinha nos moldes do que seria a Rádio Cidade: uma Rádio jovem e de estilo pra frente, movimentado.

Em 1977, não existia Rádio FM para o público jovem. “A Rádio Cidade foi a primeira, ela foi tudo”, garante a jornalista Érika Carvalhosa. Ela explica que, nessa época, havia apenas duas rádios jovens no Rio: a Tamoio e a Mundial, ambas da banda AM e as Rádios FM que existiam quando a Rádio Cidade surgiu eram chamadas “rádios de consultório” ou “rádios de elevador” e que, antes da Rádio Cidade, a programação do FM era toda em formato “vitrolão”, ou seja, tocava uma música atrás da outra sem o locutor anunciar de qual se tratava. “O que você tinha de mais dinâmico no Rádio talvez fosse o Big Boy, da Rádio Mundial, mas era na banda AM”, comenta. Infelizmente, Big Boy morreria, em São Paulo, três meses antes do surgimento da Rádio Cidade.

Rui Taveira, DJ e sonoplasta do Sistema Globo de Rádio, afirma que as Rádios que dominavam essa época eram muito populescas e a Rádio Cidade veio para atender a uma classe mais elitizada. Contudo, segundo Érika Carvalhosa, apesar de ter sido feita para o público da Zona Sul, a Rádio atingiu, em meses, o Rio de Janeiro inteiro. Mesmo com poucos aparelhos de recepção FM a Rádio Cidade, com quatro semanas de existência, já era líder de audiência no Ibope. Esses números fizeram com que o Pólo Industrial de Manaus passasse a produzir, rapidamente, rádios veiculares com banda FM por causa do enorme sucesso da Rádio Cidade.

“UMA AMÁLGAMA DE VÁRIAS COISAS IMPORTANTES”
Para falar do que foi a Rádio Cidade nos seus primórdios e com todas as inovações, ninguém melhor do que seu próprio criador. Com a palavra, Carlos Townsend:
“De cara, a Rádio Cidade revolucionou a forma como o Rádio estava se comunicando até então com os ouvintes. Foi difícil, porque foi uma técnica que já se usava nos Estados Unidos, mas você precisava adaptá-la ao Brasil, à embocadura brasileira, aos costumes brasileiros, enfim, à malemolência, ao ritmo, que é bem diferente do americano.
A Rádio Cidade era uma Rádio onde o locutor também operava. Até então não tinha isso, os locutores ficavam em uma sala e os operadores em outra, locutor não botava a mão em equipamento. Enquanto isso, nos EUA, havia o que eles chamavam de ‘operação combo’ que é, justamente, o cara fazer tanto a operação da mesa quanto a locução. Isso dava uma dinâmica muito maior, porque você tinha uma pessoa só controlando tudo, a fala e a música. Na Rádio Mundial AM, no Rio, os locutores eram todos muito empostados, com a voz muito colocada, e sem liberdade de falar nada, eles tinham que ler o que estava escrito. E na Rádio Cidade a filosofia era justamente oposta, você dava ao locutor o que ele tinha que falar, mas ele falava da forma dele e de maneira conversada, não ‘locutada’.
Em relação à música, a programação da Rádio Cidade foi uma amálgama de várias coisas importantes que a influenciaram e me influenciaram também. Na minha infância e juventude eu ouvia a Rádio Mundial e conhecia todas as músicas que fizeram sucesso antes de 1977. Eu era ouvinte de Rádio e acompanhava de perto e, falando inglês – eu tenho nacionalidade americana – eu tinha uma facilidade de lidar com a língua e com as coisas que vinham de fora. Acabou que o estilo da Rádio Cidade se tornou um estilo diferente de tudo, não ficou parecido com uma rádio americana nem com a Rádio Mundial, nem com nenhuma outra coisa, na verdade. Foi um estilo novo! Que, por sinal, foi muito copiado depois.
A Rádio Cidade teve vários pontos importantes: ela foi a primeira Rádio jovem do FM, com a vantagem de que as duas concorrentes dela eram do AM, ou seja, a qualidade de som não podia nem ser comparada. Então, mesmo que as músicas da Rádio Cidade não fossem tão boas assim, talvez valesse a pena escutá-la, apenas por conta da qualidade do FM. Segundo, ter trazido dos EUA a técnica do combo, onde o cara falava e operava a mesa ao mesmo tempo. Terceiro, uma programação musical que foi baseada no que era flashback e, naquela época, estava entrando um movimento novo, chamado discotech, que era a disco music. Eu botei bastante pop-rock e MPB, mas a disco music dava uma levantada na programação da Rádio. E as vinhetas que a gente mandou fazer nos EUA especialmente para a rádio davam um dinamismo muito grande na programação. A Rádio Cidade era muito pra cima, ela levantava mesmo o astral das pessoas.
O Rádio que se fazia até então era muito antigo, muito atrasado, um pouco retrógrado e a Rádio Cidade deu uma acelerada nisso, deu um up-to- date, colocou o Rádio bem parecido com o que estava acontecendo lá fora, principalmente nos Estados Unidos, e isso deu uma levantada no veículo como um todo.”

FALTA CRIATIVIDADE
Pegue tudo o que você sabe a respeito de se fazer Rádio no Brasil hoje e, tenha certeza, pelo menos 70% disso é fruto das inovações implantadas pela Rádio Cidade durante seus 29 anos de vida no dial 102,9. “Se, hoje, você tem uma Rádio que é dinâmica e interativa, foi a Rádio Cidade que fez isso”, afirma Érika Carvalhosa. De acordo com ela, o que se percebe é que, desde então, vem- se apostando em fórmulas prontas e já não se ousa experimentar nada que seja diferente, não se compram mais ideias. “Eu acho que faltam mais Carlos Townsend no mercado de Rádio. Falta criatividade! Depois da Rádio Cidade ninguém criou nada de diferente. Pensar dá trabalho, né?”, alfineta a jornalista.

Carlos Townsend considera que nós “emburrecemos” musicalmente de lá pra cá. “Com a emergência da Classe C nos últimos anos, ela está consumindo mais e aumentou a circulação do tipo de música que tem a ver com suas origens – axé, pagode, sertanejo universitário. O que dá audiência hoje? Quem toca o queopúblicoquer.ÉoqueaFMODia faz. De certa maneira, a FM O Dia tem características parecidas com a Rádio Cidade, por ser uma Rádio líder, uma Rádio pra cima, alegre e comunicativa. Nesse aspecto, ela incorporou o que a Cidade tinha naquela época, mas só isso, no resto ela não é parecida em nada”, enfatiza. “O que eu vejo é que houve uma mudança de águas. Antigamente todo mundo ouvia quase as mesmas coisas em termo de pop-rock e agora mudou, todo mundo ouve os mesmos pagodes, os mesmos não-sei-o-quê, mas em matéria de segmentos mais sofisticados, a coisa evoluiu, e aí você tem Rádios de internet específicas, uma que toca só techno, outra só trance. E isso não tem saída”, desabafa.

#VOLTARADIOCIDADE
Carlos Towsend considera ser muito natural essa reação do puúblico em pedir a volta da Rádio Cidade desde o 102,9 FM do Rio ficou vago. Para ele, a Cidade sempre esteve ligada a este dial e, com o sucesso que ela fez, solidificou esse número, que virou mitológico. No entanto, ele não acredita em um retorno da Rádio Cidade no estilo que era originalmente. A esse respeito, ele é taxativo: “De jeito nenhum! Eu acho que é muito difícil fazer algo sequer parecido com a Rádio Cidade. Você tem duas opções: ou mantém uma rádio sofisticada, que não toca axé, não toca pagode ou você toca o popular. Então, qualquer formato, mesmo que seja o mesmo formato da Rádio Cidade daquela época, com os mesmos locutores, com a mesma dinâmica, não vai ter audiência para isso, as pessoas vão estar ouvindo FM O Dia ou BEAT98.”

Érika Carvalhosa é da mesma opinião: “Mas aí volta em que situação? Volta como? A marca é muito forte. Tem a marca daquela pessoa que começou vindo a Rádio Cidade lá no começo. Tem a minha marca, que comecei a escutar Rádio no final da década de 1980, começo da década de 1990. E tem a galera agora que conhece a Rádio Cidade como ‘Cidade Rock’. Essa Cidade Rock, pra mim, não é a mesma rádio. Apesar de ter bons profissionais que já trabalhavam lá, pra mim, não é a mesma rádio que eu ouvi. Claro que a gente não está falando em voltar para a Rádio Cidade da década de 1970, mas você também não pode pegar uma marca e colocar qualquer coisa no lugar. Isso é acabar com ela”.

Rui Taveira acrescenta: “Será que a Rádio Cidade de hoje conseguiria ter a mesma graça de antes? Acho que não é mais possível repetir o sucesso que ela teve. Seria uma decepção para mim e para a galera dos anos 70, porque a rádio não ia conseguir voltar nem 10% do que foi. Não me refiro à audiência, mas no sentido de importância mesmo”.

Agora é questão de esperar o que vem por aí! Muita sorte a todos da Rádio Cidade e que as nossas tardes possam ser, mais uma vez, repletas da boa música que essa rádio sempre nos proporcionou. Aquele abraço!

TRIBO DOS CARETAS
Foram quase três décadas ininterruptas de existência e algumas mudanças, principalmente de estilo, ao longo do caminho. Gerações bastante distintas e distantes foram educadas ao som da Rádio Cidade, seja no tempo da disco music, seja depois, já na fase rock and roll. Mas uma coisa era certa: por mais que mudassem o gênero musical da estação, o estilo dos ouvintes, quase sempre, permanecia o mesmo. Rui Taveira conta que existiam duas tribos: a dos “caretas” e a dos “doidões”. Segundo ele, o “doidão” ouvia a Fluminense, já o “careta” ouvia a Rádio Cidade. “Era assim mesmo! A Fluminense tocava aqueles rocks progressivos que duravam 20 minutos. Isso jamais aconteceria na Rádio Cidade! Lá, as músicas já chegavam em cartucho no estúdio, e não podiam passar de quatro minutos”.

Matéria realizada por Thayz Araújo | Rádio em Revista 10 | jan/fev/mar de 2014.

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