Rádio: o tambor tribal camaleônico

 Com o fôlego de camaleão proporcional à força dos pretensos inimigos que poderiam emboscá-lo, o rádio brasileiro soprará as noventa e três velinhas para comemorar não só a data, mas também para celebrar a capacidade de adaptar-se às mudanças tecnológicas que alteram a relação entre emissor e receptor. Duas matérias postadas aqui no site “Rádio em Revista” neste fim de julho (“O rádio em novas tecnologias” e “Jovem Pan transforma estúdio em cozinha e aprendizes a chefs preparam prato”) mostram que essas mudanças, bruscas desde a invenção da imprensa por Gutemberg no século XV, tornaram-se mais impactantes e massivas no século XX com a propagação da voz e da imagem.
 
Há seis décadas discutia-se o velório do rádio, que se findaria pela pujança insubstituível da transmissão da imagem acoplada a aparelhos domésticos. Ressuscitou-o Marshall Mcluhan (1911-1980), o profeta da aldeia global que hoje retorna à voga  pelas mãos de pesquisadores que perscrutam o universo da internet.  Ele deu ao rádio o status acadêmico de “meio quente”, e diagnosticou-lhe o poder sensorial sobre o ouvinte que equivale à de um tambor tribal.
 
 No canônico Os meios de comunicação de massa como extensões do homem, obra publicada em 1964 nos Estados Unidos e, aqui no Brasil, cinco anos depois em tradução do poeta Décio Pignatari, escreveu este pensador canadense: “Com a TV, o rádio se voltou para as necessidades individuais do povo, em diferentes horas do dia, bem em sintonia com a multiplicidade de aparelhos receptores nos quartos, banheiros, cozinhas,  carros  e – agora – bolsos.” Todas as análises das nove décadas de rádio no Brasil subscrevem essa afirmação.
 
Particularizando sua relação com o ouvinte que, graças ao transistor, pôde transportar o aparelho aonde quer que fosse, o rádio remodelou-se técnica e esteticamente. E, nas palavras de Mcluhan, “retribalizou o mundo”, ao despertar nos indivíduos sensações que antes cabiam aos rituais primitivos e ao permitir que eles se agrupem em torno de interesses comuns. Se foi assim há meio século, por que hoje seria diferente, se o World Wide Web (www) e as novas plataformas levam ao paroxismo a ideia de aldeia global, de retribalização?
 
Ao contrário dos anos 50 e 60, quando a televisão parecia a muitos sobrepor-se ao rádio, as tecnologias deste início de século XIX não rivalizam com o meio radiofônico: bem ao contrário, assimilam-no, permitindo a ele novas formas de aprofundar a individualização com o receptor. Não foi à toa que o jornalista e comunicólogo brasileiro Alberto Dines disse que o rádio é a mídia do futuro.   
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Até aqui, falamos de passado e presente para – tentar – vislumbrar o futuro. Porém falar de futuro é falar de possibilidades cuja concretização é incerta. A fácil adaptação do rádio à tecnologia digital não significa uma miríade rósea na barafunda comunicacional que se prenuncia as próximas décadas. Sobre isso, dedicarei muitas reflexões neste espaço.  
Bruno Filippo  – Jornalista, sociólogo
Julho / 2015

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