Rádio Lar


Por motivos óbvios, nosso personagem não terá o seu nome revelado. Mas era um rapaz bem educado, moreno, baixo, mais para gorducho do que para esbelto. Tinha uma voz grave e tranquila e conseguiu a vaga de apresentador numa importante emissora de rádio do Rio.
Duas horas de programa vespertino em que falava de tudo: novela, paixão, sua infância no interior de São Paulo, seus laços familiares, a necessidade de defender os mais fracos e de reajustar os vencimentos dos aposentados, a falta de segurança nas ruas, as belezas da Baixada Fluminense e de São Gonçalo. Enfim: era um programa bem popular e que aos poucos foi ganhando fãs.
Pelos corredores da rádio, muitas vezes, ele era isto de manhã, horas antes do programa começar. Era visto de madrugada, horas depois do programa terminar. Era visto até nos dias de folga. Uma dedicação total. Chegou até a ser visto em praticamente todos os dias de suas férias. Muitos viam aquilo como uma dedicação imensa ao programa e uma grande vontade de vencer no Rio.
O pessoal da produção estranhava um pouco o seu comportamento. Afinal, recebera da direção da rádio um conjunto de três salas para colocar ali o pessoal que trabalhava com ele. Uma sala foi destinada ao pessoal. Outra, a uma espécie de almoxariado e arquivo. A terceira sala era dele, o comunicador e ele não permitia que ninguém entrasse lá, nem o pessoal da limpeza.
Num domingo, logo depois do almoço, saiu ele correndo de sua sala. Louco, trombando em tudo, em direção ao banheiro. Quem viu não acreditou. Estava descalço, sem camisa e trajava apenas um calção verde, desses comprados em feira livre, que tem um elástico no cintura. Maldita dor de barriga. Deixou a porta de sua sala aberta e o pessoal que estava de plantão pôde ver o que havia lá dentro. Calças, camisas, sapatos, lençóis, ferro elétrico, um pequeno televisor, um rádio, um pequeno móvel com escova de dente, talco, alguns remédios… Ninguém tinha dúvida: o colega estava morando na rádio.
Foi demitido. Numa tacada só, perdeu o emprego, a casa e o sonho de vencer no Rio.

Por Maurício Menezes
Edição Rádio em Revista 5 (ago/set 2012)

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