O Rádio e os Direitos de Transmissão

No início de julho, dia anterior à decisão da Copa América entre Chile e Argentina, que os brasileiros sem acesso à televisão paga só puderam acompanhar pelo rádio – a emissora detentora dos direitos não transmitiu o jogo -, o Ibope Média revelou que, no Brasil, 89% da população têm o hábito de ouvir rádio. Esse e outros números robustos da pesquisa, realizada entre janeiro e março deste ano em 13 regiões, reforçam a importância e a penetração do meio rádio num mundo, o da comunicação, que há vinte anos sofre os efeitos mais intensos daquilo que o economista Joseph Schumpeter, na década de 40, classificou de “destruição criadora”. Mas as novas plataformas impõem desafios e erguem obstáculos à manutenção da audiência que, devido à multiplicação de produtos midiáticos, pode pulverizar-se. E a irradiação dos jogos da Copa América explicitou um problema que talvez não esteja ainda bem dimensionado.

O direito de transmissão vendido às emissoras limita-se às ondas sonoras captadas pelos aparelhos de rádio, e elas não puderam reproduzir, simultaneamente em seus sites e aplicativos, o que veiculavam nas frequências de AM e FM, porque a internet é considerada outro meio, cujos direitos se negociam à parte. Ocorre que a internet é uma plataforma convergente, que abriga os outros meios, de modo que se pode, nela, ouvir rádio, ver televisão, ler jornais, livros e revistas, escutar música. Isso transmuda o entendimento sobre o que sejam os meios tradicionais: rádio e televisão, por exemplo, deixam de ser um aparelho sem o qual é impossível a recepção de seu conteúdo e tornam-se a maneira pela qual seu conteúdo é veiculado e absorvido.

Assim, para aqueles que têm o hábito de caminhar ouvindo músicas ou notícias, ou ler os jornais do dia no transporte coletivo, os smartphones e os tablets oferecem-lhes todas essas opções. Mas se essas mesmas pessoas quisessem acompanhar os jogos da recém-terminada Copa América pelos aplicativos ouviriam, em vez da empolgante voz de narradores, repórteres e comentaristas, um comunicado de que a emissora estava impedida de transmiti-los por força de contrato – ou então seriam brindados com a reprise de programas ou com programação gerada somente para suprir essa lacuna.

A importância dos aplicativos para a portabilidade do rádio é crucial porque os smartphones mais modernos já não vêm com a opção de rádio FM – e o argumento usado pela Apple baseia-se exatamente na possibilidade de ouvi-lo por streaming, contra o que se insurgiu, nos Estados Unidos, a Associação Nacional de Radiodifusores, que propôs à empresa, até agora sem sucesso, voltar com a opção de rádio FM no IPhone. Como a maioria das emissoras brasileiras, segundo pesquisa da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), possui sites na internet e a adesão aos aplicativos é uma tendência crescente – a própria Abert criou recentemente o “Abert Mobilize-se”, que licencia gratuitamente os “apps”, o que favorece as rádios pequenas e médias de todo o país -, é preciso que o rádio, como meio, não seja considerado apenas um aparelho. Um anacronismo que limita sua capacidade camaleônica de adaptar-se às mudanças.

Por
Bruno Filippo -Jornalista, sociólogo
Setembro/2015