O Rádio e o Futebol no Rio de Janeiro

Ary Barroso revolucionou a locução esportiva no rádio
Ary Barroso revolucionou a locução esportiva no rádio
No momento em que o radialismo esportivo carioca vive outra fase de mudanças de alguns de seus nomes principais, ano e meio depois da saída de José Carlos Araújo da Rádio Globo e do retorno à emissora de Luiz Penido, permito-me algumas considerações sobre a relação entre o futebol e o rádio – e entre estes e os ouvintes.
O rádio realiza transmissões esportivas desde a década de 30; ajudou, com isso, a popularizar o esporte de um país que se reinventava na política, na visão de artistas e intelectuais e na cultura – e que passou a ver no futebol, no samba e no carnaval um trinômio de identidade nacional. Sem os veículos de comunicação, e no futebol em específico o rádio, a reinvenção do Brasil seria invenção de poucas patentes.
Na história do rádio no Brasil,  as transmissões esportivas têm periodização diferente: se a Era de Ouro do Rádio foi nas décadas de 40 e 50, com programas de auditório e radionovelas, o período mais glorioso do radialismo esportivo deu-se a partir dos anos 60, quando a massificação da TV obrigou o rádio a reinventar-se, e  perdurou até os anos 90, quando a novidade da televisão a cabo disseminou o noticiário esportivo extensivo por meio dos canais dedicados unicamente ao esporte, o que permitiu ao público a possibilidade de assistir a todos os jogos. Antes, saber notícias do clube e de uma competição era mais fácil no rádio, que abre horas diárias ao longo da programação, do que na TV – na qual em geral as informações eram condensadas no telejornal esportivo do início da tarde. Assim como a transmissão ao vivo na TV era restrita ao jogo de um dos grandes clubes do estado – mesmo assim jogos importantes, como finais de campeonatos, não eram televisionados para a cidade onde eram realizados.
A preferência do público pela televisão para acompanhar noticiário e transmissão esportiva é apontada por uma pesquisa recente do Ibope, realizada em 2011 e intitulada “Esporte Clube Ibope Média”, que analisou, em amostragens que representam 50 milhões de pessoas em doze regiões metropolitanas do país, a interação do brasileiro com a comunicação esportiva.
Setenta e dois por cento optam pela televisão para obter informações sobre esporte. O rádio vem em segundo lugar, com 21%, o que representa mais de onze milhões de ouvintes – um número mais do que considerável. Um detalhe interessante, e sintomático dos novos tempos do rádio esportivo, é que o rádio FM é preferido por 12%, ao passo que o AM é ouvido por 9%. Se se considerar que por décadas as transmissões esportivas eram monopolizadas pelas emissoras de amplitude média, enquanto cabia às de frequência modulada tocar música, os dados da pesquisa mostram como essa velha dicotomia AM/FM está a cair por terra.
A sobreposição de mídias pelo público – ou seja, a utilização simultânea de dois meios diferentes – também foi pesquisada. E, para a surpresa de muitos que abaixam o volume da televisão e ligam o rádio durante os jogos, as mídias mais sobrepostas são televisão e internet: 30%. Em segundo lugar, televisão e jornal: 24%.  A audição do rádio conjugada a outros meios vem em terceiro (rádio e internet: 18%, empatado com TV e Revista), em quarto ( rádio e televisão: 16%) e em quinto (rádio e jornal: 11%, empatado com jornal e revista).
Em São Paulo, um dos maiores mercados de rádio da América Latina, com grande concorrência, as duas emissoras que pela aferição da audiência trimestral pelo Ibope, lideram tanto as jornadas pré e pós jogo quanto as transmissões (“bola rolando”) são FMs de programação jovem e popular: 105FM, em primeiro, secundada pela Transamérica FM. Estão à frente, não raramente com ampla vantagem, das tradicionalíssimas Globo, Jovem Pan e Bandeirantes, que há décadas dedicam-se ao esporte. A equipe esportiva da 105FM é recente: foi criada há menos de uma década.
A qualidade sonora da banda do FM e, sobretudo, a convergência com os produtos portáveis de tecnologia de ponta, fez as duas principais emissoras de AM do Rio de Janeiro – Tupi e Globo – reproduzirem sua programação em FM – duplicidade que já era realizada por emissoras tradicionais de São Paulo e Porto Alegre.
 No Rio, experiências com transmissão somente em FM – como as feitas pela extinta Rádio Tropical entre os anos 1980 e 90 – não deram certo, não abriram mercado. Experiências recentes como a Bradesco Esportes FM , que tirou Garotinho da Globo, e a Transamérica FM, emissora para a qual ele acaba de transferir-se, não abalaram a hegemonia da Tupi, líder de audiência, e da Globo. Fazê-lo, e emular a cabeça de rede paulista, será mais um desafio para José Carlos Araújo – que, em 1977, alavancou a audiência da outrora gloriosa Rádio Nacional, abriu mercado e revelou novos talentos.
Bruno Filippo  -Jornalista, sociólogo
janeiro/2014

COMMENTS

  • Paulo Duarte

    pelo texto, mostrando uma realidade,principalmente para os mais jovens,que naõ conheceram o auge do AM,mais com esta fusão, é a qualidade de som, o esporte no celular,sem precisar ficar segurando o velho radinho de pilha.A modernidade é assim e todos temos que acompanha-la para naõ ficar no passado.Um abraço-Paulo Duarte, narrador Esportivo

  • aureo ameno

    Perfeito amigo. O locutor esportivo sempre foi um arista. Ele “desenhava” o campo, o jogo para os ouviintes que não podiam ver. Mas, de acordo com a transmissão, criava imagens. Por exemplo – o time tal vai defender o gol à direita das cabines de radio. Já estava dando ao ouvinte o campo que o seu time ocupava. Fluna avança pela direita, dribla um, vai até a linha de fundo, cruza na pequena area, sai o golerio e defende. Quer dizer – o narrador dava a “geografia” do jogo, ressaltando sempre onde o jogador e a bola se encontravam. E o ouvinte ia acompanhando com a cabeça fixada na imagem que o narrador descrevia. Parabens por mais esta bela coluna.

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