Noite feliz ou noite de paz?

doloresduran
É Natal. Ou quase. Escrevo antes, bem antes. Percebo-lhe a proximidade pelas
decorações, pelos votos que cada pessoa deseja a seu interlocutor ao fim da
conversa, pelos anúncios propagandísticos. E pela expectativa daquele sentimento
difuso que recobre a atmosfera ao nosso redor nas últimas horas do dia 24. A maioria
espera uma noite feliz. Quantos terão uma noite de paz?

Uma das canções natalinas mais tocadas no mundo é, na versão brasileira, chamada de
“Noite Feliz”. Há centenas de versões, em vários idiomas, criadas a partir da
melodia original. No Brasil, a mais conhecida é esta:

Noite feliz, noite feliz!
O Senhor, Deus de Amor,
Pobrezinho, nasceu em Belém
Eis na lapa Jesus, nosso Bem
Dorme em paz, ó Jesus!
Dorme em paz, ó Jesus!
Noite feliz, noite de paz!
Ó Jesus, Deus da luz!
Quão afável é o teu coração
Que quiseste nascer nosso irmão
E a nós todos salvar!
E a nós todos salvar!
Noite feliz, Noite feliz
Eis que no ar Vem cantar
Aos pastores Seus anjos no céu
Anunciando a chegada de Deus
De Jesus Salvador
De Jesus Salvador

Foi pensando nessa noite, no momento em que Ele nasceu, que a canção foi composta
pelo padre Joseph Morh e pelo pianista Franz Gruber, que cobriu de melodia os versos
de Morh. Mas isso foi há muitos anos: no início do século 19, em Oberndorf, pequena
cidade dos Alpes Autríacos, um dos lugares mais lindos do mundo. Hoje, essa canção
está no nosso inconsciente coletivo; e, em Oberndorf, uma capela, para homenagear os
moradores mais ilustres de sua história, registra em seus vitrais as feições de
Joseph Morh e Franz Gruber.

Não obstante sua melodia triste, “Noite Feliz” é cantada menos como um convite do
que como uma intimação à felicidade a que todos devem aderir porque é Natal. Não
importa seu estado de espírito durante todo o ano. Importa que se deixe o espírito
natalino impregná-lo. É triste, mas é verdadeiro: a aspiração a uma noite feliz não
será uma realidade para todos. Nesses momentos, paradoxalmente, as tristezas, as
angústias, as frustrações costumam aflorar em muitos que, oprimidos pela obrigação
de serem felizes, fingem a felicidade. Não estou inventando uma teoria, nem sendo
um estraga-prazeres da tradição natalina, nem mesmo um apóstolo do pessimismo: as
tristezas natalinas são tão cantadas em verso e prosa quanto sua felicidade.

Há um samba-canção chamado “Noite de paz”, de Dolores Duran – compositora da Era do Rádio que soube traduzir em letras e melodias o sentimento de melancolia –, que,
mesmo não sendo uma canção natalina, e sim uma canção dor-de-cotovelo, permite um
contraponto à “Noite feliz”. (No vídeo que ilustra esta coluna, a subestimada
cantora Vânia Bastos a interpreta num show realizado em São Paulo, há alguns anos)
Em seus versos, pede-se:

Dá-me, Senhor
Uma noite sem pensar
Dá-me Senhor
Uma noite bem comum
Uma só noite em que eu possa descansar
Sem esperança e sem sonho nenhum
Por uma só noite assim posso trocar
O que eu tiver de mais puro e mais sincero
Uma só noite de paz pra não lembrar
Que eu não devia esperar e ainda espero.

Pelo nome, ambas se complementam, pois felicidade e paz são sentimentos que, em
nossa maneira de pensar, advêm da mesma fonte. No entanto, a paz de Dolores Duran,
quer dizer, a paz a que aspira, que pede ao Senhor, é a paz de uma noite simples,
sem festas, sem rituais; uma noite de descanso da mente e das dores da mente, sem
esperança e sem sonho nenhum. É a paz dos infelizes, dos sofredores. É a paz que se
destina a quem, ao deitar-se, sonha, espera – em vão. Por isso, o que há de mais
puro e mais sincero pode ser trocado por essa paz que, à noite, não fará lembrar a
esperança e os sonhos.

Aqueles que fingem felicidade na noite de Natal não terão uma noite de paz. Esses,
após a ceia, após os cumprimentos, após dar e receber presentes, vão deitar-se
envoltos na paz dos infelizes. Na solidão de suas consciências, clamarão por uma
noite bem comum. Ainda que seja para sonhar, para ter esperança. Ainda que seja para
que possam ter, no ano seguinte, uma noite feliz.
* * *
Independentemente do que desejam nesta época – uma noite feliz ou uma noite de paz
-, deixo-lhes, caros leitores, votos de feliz Natal.

Bruno Filippo -Jornalista, sociólogo

COMMENTS

  • aureo ameno

    Repórter, sociólogo, poeta, todos se unem nessa mente privilegiada.Bruno Fillippo é uma das pessoas mais inteligentes e cultas que conheço. Tão inteligente, que o culto fala o povês, com conteúdo e até com poesia. Nessa singela crônica, temos tudo que se exige de um bom comunicador: informação, conteúdo, formação, clareza, órdem direta e simplicidade. Mais uma vez parabéns e, muito obrigado,por citar um dos mais bonitos poemas musicas da doce Dolores Duran.

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