Nélio Bilate

Nélio Bilate

Nélio Bilate, 77 anos, carioca, morador da Ilha do Governador. Casado, pai de três filhos e uma vida profissional que se mistura com a história do rádio no Brasil. Apaixonado pelo que faz, Nélio Bilate está há 41 anos no “ar” em uma única emissora, a Super Rádio Tupi. Profissional brilhante, humilde e com muitas histórias para contar…

JPQual foi sua primeira matéria?

NB: Minha primeira matéria foi com o Zé da Bíblia. Um homem, bem vestido, com uma Bíblia na mão, que tocava a campainha da casa das pessoas, se ajoelhava, rezava e pedia um copo d’água. A pessoa abria a porta e ele pegava uma arma escondida no fundo falso da Bíblia e rendia o morador, levando dinheiro. Assim, ele foi fazendo várias vítimas.

JPMas Nélio, esse foi o início de muitas histórias…

NB: Ah, sim, eu entrevistei o pai do menino Carlinhos, João Melo, suspeito de ter participado do sequestro do próprio filho. Outra reportagem de destaque foi a do assassinato da filha da autora Glória Perez, a atriz Daniella Perez, morta pelo então ator Guilherme de Pádua e a mulher dele Paula Thomaz. A Rádio Tupi foi a única a entrevistar os envolvidos no crime.

JPAgora conta a estratégia usada para conseguir a entrevista.

NB: Bem, o Guilherme de Pádua estava na cela, na 16ª Delegacia, na Barra da Tijuca, de cabeça baixa, e toda a imprensa do lado de fora, inclusive a TV Globo, porque, na ocasião, ele era ator de uma novela da emissora. O Cidade Oliveira, delegado da unidade, me disse que não adiantava que o Guilherme não queria falar com ninguém. Aí eu insisti para ele que me levasse até a porta da cela. Chegando lá, eu ao invés de chamá-lo de Guilherme de Pádua, o tratei pelo nome do personagem na novela, Bira, que era um motorista de ônibus. Coloquei a mão no ombro dele e disse: – “Bira, eu não acredito que você fez isso. Minha filha adora você e isso é sacanagem. Eu tenho certeza que você jamais mataria a Daniella Perez”. Acrescentei: – “Olha, amanhã eu vou falar com a tua esposa, a Paula Thomaz, que está na Polinter, em Niterói, quer mandar uma mensagem pra ela?”. Naquele negócio de mandar mensagem eu comecei a fazer a reportagem. No final, ele deixou a mensagem para a esposa, que estava grávida de sete meses.

JP E como você conseguiu falar com a Paula Thomaz?

NB: No dia seguinte, eu fui até a Polinter, em Niterói, para entrevistar a Paula Thomaz. O Wilson, o carcereiro, disse que ela estava proibida de falar com a imprensa. Foi quando eu disse para chamá-la que eu tinha um recado. Ela veio e disse: -“O senhor não me leve a mal, mas eu não posso falar”. E eu respondi que tinha uma mensagem do Guilherme e perguntei se ela queria escutar. Foi aí que soltei um trechinho do recado e parei. Ela queria ouvir mais. A minha condição foi que Paula gravasse uma mensagem para ele também. Ela topou e eu coloquei a gravação para ela ouvir. Em seguida eu fiz a reportagem com ela.

JP – Qual foi a reportagem mais emocionante?

NB: Ah, foi com o rei Roberto Carlos, quando ele foi destaque da Unidos do Cabuçu. Ele era o enredo da escola. Quando ele chegou à Praça da Apoteose, eu saí correndo e pulei no carvalhão, um equipamento de grande porte, uma espécie de elevador, que foi usado para tirá-lo do alto do carro. As pessoas embaixo gritavam “maluco, esse cara é maluco, você vai cair daí”. O Sérgio Moraes, falecido comunicador, que na época estava comandando o carnaval da rádio, não abria linha de jeito nenhum para eu entrar no ar. O Roberto Carlos cercado de seguranças seguiu para o camarote, onde daria uma coletiva. Foi quando eu furei o bloqueio e o segurança me agarrou e rasgou um pedaço da milha roupa. Eu gritei: -“Oooo Robertooo”. Ele viu meu desespero e mandou que me soltassem. Ele me autorizou a ir até o camarote para conversar com calma. Quando a porta abriu, eu me apresentei dizendo que ele me aguardava. Eu falei para segurança, você pode até quebrar meu braço, mas entrega esse cartão a ele. Minutos depois, a porta voltou a abrir e o segurança me mandou entrar. Eu fiquei emocionado quando ao final da reportagem exclusiva, Roberto Carlos me parabenizou pela garra. Disse que a rádio estava de parabéns e que se ele abrisse uma emissora eu estaria convocado.

JP E a experiência de ser comunicador?

NB: O programa “A Um Passo da Liberdade”, sob meu comando, ficou no “ar” 10 anos, 1975 a 1985. O objetivo era ajudar o preso que estava saindo da cadeia, fazendo apelo de trabalho e mostrando a importância da sociedade no processo de recuperação para que o indivíduo não retornasse a vida do crime.

JP Qual recado você deixa para os jovens profissionais.

NB: Exerça a profissão com vontade, conduza a matéria com carinho e mostre que é um profissional. Nunca agrida o entrevistado. Seja humilde, a humildade esta acima de tudo. A reportagem mais difícil é que é a boa!

 Entrevista realizada por Julyana Pollo – 22.10.2012

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