Homenagem a Jorge Nunes

Jorge Nunes Silenciou-se um campeão de audiência. E, sempre que isso acontece, sua voz ecoa saudades de um estilo, de uma dicção própria, do carisma tão indispensável ao meio quente que é o rádio, apesar de muitos quererem, sob a pecha da modernidade, esfriá-lo. Jorge Nunes foi-se; e, junto, o que só ele sabia fazer. Seu estilo descontraído, irônico, piadista, tinha predecessores no rádio carioca. Cito dois: Afonso Soares e Áureo Ameno. O que o tornou originou foi somar ao que ambos haviam feito (e que Áureo está voltando a fazer) a linguagem moleque, das ruas e dos botecos, no limite do escracho, com gírias, palavrões e expressões que, em outras bocas e fora do estúdio, seriam consideradas de baixo escalão. Para Jorge Nunes, não havia filtro que depurasse as palavras que lhe expressavam o sentimento.

Em épocas pretéritas, as portas das principais emissoras se teriam fechado a ele, pelo seu estilo. Talvez por isso, e pelas dificuldades naturais da profissão e de sua vida pessoal, tenha chegado tarde ao ápice da carreira, quando estava para entrar na faixa dos cinquenta. Há coisa de duas décadas, um jornalista, que trabalhara com Jorge Nunes, contou-me de sua vontade hercúlea de obter o reconhecimento como profissional do rádio. À época, essa vontade era apenas isso: vontade. Que se concretizou quando abraçou sua primeira – e única – grande oportunidade, depois de passar, ao longo de mais de duas décadas, por diversas emissoras pequenas e médias: o ingresso na Rádio Tupi.

Não tinha voz bonita, mas a fez marcante, símbolo da comunicação fácil que fez da Tupi a líder de audiência. Ao partir, na noite do último dia de janeiro de 2014, já estava na história do radialismo esportivo e da emissora quase octogenária, cujos ícones desfilaram-lhe homenagens bonitas e emocionadas. Ninguém tinha dúvidas: Jorge Nunes era também um ícone!

Todos os que com ele conviveram ressaltam sua generosidade, enfatizam suas qualidades fora dos microfones. Quero dar relevo a outro sentido de sua morte: apesar dos obstáculos, nunca é tarde para lutarmos pelos nossos sonhos.

Bruno Filippo – Jornalista, sociólogo
Enviado em 31 de janeiro de 2014.

COMMENTS

  • Luis Carlos Gonçalves

    Predecessores? Pecha? Realmente você não captava a essência do Jorge Nunes. Ele era povo e falava pra massa como poucos. A sua intenção foi boa, mas o resultado foi esquisito. É nessa hora que todos usam os mortos para tentar aparecer.

  • Paulo Duarte Na Década de , em seu final, acredito 79,voltando da Radio Cub de Pernambuco, fui para a Radio Capital do Rio,pois sempre foi minha terra e lá encontrei JORGE NUNES,batalhando como reporter da equipe de Francisco Horta.Ele humildemente fazi

    Paulo Duarte Na Década de , em seu final, acredito 79,voltando da Radio Cub de Pernambuco, fui para a Radio Capital do Rio,pois sempre foi minha terra e lá encontrei JORGE NUNES,batalhando como reporter da equipe de Francisco Horta.Ele humildemente fazia reportagens fora do Maracanã nas transmissões esportivas,mais fazia feliz.O conheci lá.Um lutador realmente pelo que desejava, RADIO ESPORTIVO.Conseguiu mesmo que por um tempo inferior a sua capacidade e profissionalismo.Valeu Jorge.

  • O Bruno é sensível, fala com propriedade e coloca além do conhecimento o amor que tem pelo rádio. Jorginho Nunes quebrou paradigmas, assustou alguns elitistas e conquistou o povão e deixa um buraco enorme na comunicação esportiva do rádio. Na semana que ele morre o Áureo recomeça. Viva a criatividade que o povo adora.

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