Revista do Rádio

Primeira capa da Revista do Rádio

Lançada em fevereiro de 1948 pelo jornalista Anselmo Domingos, não por acaso quando a ascensão do rádio no Brasil dava origem ao que ficou conhecido como “Era do Rádio”, a Revista do Rádio, que por 22 anos (1948-1970) circulou em praticamente todo o território nacional, logo se tornou uma das mais célebres protagonistas desse rico momento de nascimento da cultura de massas em nosso país.

O discreto editorial de apresentação da nova publicação parecia prever o destino do periódico, ainda que não manifestasse essa pretensão: “Uma revista nova é sempre uma incógnita. (…) Programa não apresentamos. Ele está encerrado no próprio nome da revista. Estaremos cumprindo um programa se cumprirmos com o título.”

A revista chegou a ficar tão famosa que se tornou marchinha de carnaval, na voz do palhaço Carequinha: “Ela é fã da Emilinha/ Não sai do ‘César Alencar’/ Grita o nome do Cauby – Cauby!? E depois de desmaiar/ Pega a revista do Rádio/ E começa a se abanar”.

Seu sonho era fazer uma revista que falasse dos astros e não fosse vinculada a nenhuma emissora. Mas não tinha dinheiro. Todos os antropólogos que se debruçaram sobre a cultura nacional encontraram como traço facilmente reconhecível: o jeitinho.
A história da Revista do Rádio comprova isso.
Quem acabou arranjando o financiamento para a criação da revista foi um banqueiro, José Batista, conhecido como China da Saúde, que comprava músicas e entrava como co-autor.
O primeiro número da revista teve quarenta páginas e trouxe na capa Carmem Miranda, de quem Anselmo era fã. Custava três cruzeiros e foi um sucesso imediato.


Revista do Rádio – ano 1 nº 01

Em 1949 ela já vendia 50 mil exemplares.
Em 1950 já se tornava semanal.
A razão disso estava na forma diferenciada como a nova publicação tratava o mundo do rádio. Antes existiam outras publicações sobre o assunto, como A Carioca, A Noite Ilustrada, A Noite e A Manhã, mas todas funcionavam como órgão oficial de divulgação da Rádio Nacional, pertencente ao governo. Ou seja, eram o que se chama no meio jornalístico de revistas de releases.
A nova publicação, ao contrário, divulgava todas as rádios e de forma mais autônoma, agradando a um público mais amplo.
A revista tinha os ingredientes certos para agradar ao público dos anos 40/50: “Não bastassem as informações em geral sobre a vida pessoal e artística das celebridades do momento, havia ‘fuxicos’ e um pouco de apelação em suas manchetes para atingir em cheio a curiosidade do povão”. As seções da revista comprovam isso. A seção “Ficha completa”, por exemplo trazia informações sobre os artistas na forma de pequenas frases. Como exemplo, a ficha (resumida) de Agnaldo Rayol:

“Seu verdadeiro nome é Agnaldo Coniglio Rayol. Usa pasta dental colgate e sabonete cinta azul. Tem a mania de morder os lábios. Seus pratos prediletos: nhoque e vatapá. Dorme de calção. Em casa adora andar de chinelos. Adora o nome Sueli.”
Como se vê, as informações (totalmente fúteis) eram organizadas na forma de fichário, daí o nome da seção.
A “Eu sou assim” era dividida em duas colunas: “Eu gosto” e “Eu não gosto”. Para uma pergunta dessas, nenhuma resposta poderia ser melhor do que a dada pela cantora Stelinha Egg, especializada em canções folclóricas: “Eu gosto de tudo que é belo e não gosto de tudo que feio”.
A seção “Entrevista Teco-teco” trazia um perfil dos artistas, com suas opiniões sobre assuntos recentes. As perguntas eram do tipo: que marca de automóvel você prefere? O que você acha de tal moda? Respostas muito interessantes deu a cantora Dolores Duran em entrevista publicada 15 dias antes de sua morte:
“Que marca prefere: o Cadillac ou o Chevrolet Belair? – Prefiro saber a ‘marca’ de quem está dirigindo.
“Qual o seu número da sorte? – É exatamente o que vem contido dentro de um certo envelope no fim do mês.”
A seção “24 h na vida de um artista” mostrava o dia-a-dia dos artistas, ilustrado com foto. Detalhe: o dia-a-dia muitas vezes era inventado pelos redatores. Exemplo disso foi a matéria dedicada a Ademilde Fonseca. Depois de acordar às 7h30, tomava banho, escovava os dentes. Depois, alegre e jovial, a cantora saía em passeios pelo bairro de Higienópolis. De carro ou de lambreta, Ademilde matava o tempo enquanto aguardava a hora de regressar a casa. Ao lado, uma foto da cantora posando ao lado de uma lambreta.
Entrevistada uma vez a cantora declarou: “Eu nunca andei de lambreta, mas realmente tomava banho frio todo dia”.
Outra seção curiosa era a “Minha casa é assim”. Nela, os artistas mostravam suas casas, um vexame comparado ao que vemos hoje em revistas como Caras. Mesmo a classe média não tinha um padrão alto de vida e bens de consumo eram pouquíssimos. Quando um artista tinha carro, esse fato era bastante destacado nas matérias como forma de demonstrar o status do mesmo.
Se a seção “Minha casa é assim” revela as diferenças econômicas do Brasil da década de 50 para o atual, a seção “Pergunta da semana” revela as diferenças culturais. Em setembro de 1952, por exemplo, a revista perguntou aos artistas qual a melhor profissão para mulher.
Joana D’Arc, da rádio Tupi, respondeu, “A de esposa, porque é o mais belo cargo e o que a mulher pode exercer com facilidade e segurança”.
Saint Clair Lopes (que fazia a voz do personagem Sombra), respondeu: “Qualquer profissão serve para a mulher, desde que ela não abdique de seus direitos de dona do lar, a dona da casa”.
Mas o grande sucesso da revista foi a seção “Mexericos da Candinha”. A partir dela, Candinha virou sinônimo de fofoqueira. Qualquer coisa era assunto para uma fofoca: o valor gasto por uma cantora no ar-condicionado, uma festa dada por uma celebridade do rádio, a magreza de uma atriz, a suspeita de infidelidade conjugal…
Eis alguns exemplos do veneno da Candinha:
“Esse Humberto Teixeira tem cada uma! A última foi uma festa que ele promoveu lá nos cafundós da Gávea, perto da Vista Chinesa, uma festa de noite, até de madrugada, e onde rolou tudo! Basta dizer que lá pelas tantas a ordem era reviver os tempos de Adão e Eva! E olhem que muita gente boa estava presente… Esse Humberto!
“Vocês já repararam que a Dalva de Oliveira não despreza um crucifixo de ouro que traz sempre ao pescoço? Eu quis saber dela quem deu a linda cruz, Dalva disse que não podia dizer. É um segredo que ela levará para o túmulo – e nada mais adiantou.
“Maysa e Ângela continuam se odiando cordialmente.
“O prato predileto do Cauby é feijoada. Mas nem assim ele engorda. Pesa 60 kg com roupa e tudo!”
Claro que isso eram tempos passados, quando raramente o editor de uma revista ou jornal era processado. Hoje isso seria impossível. Mas os artistas da época tinha outra forma de se vingar: fazendo música. A primeira delas saiu em 1963 e foi gravada pelo comediante Moacyr Franco. A segunda, mais famosa, é de 1965 e foi gravada por Roberto Carlos:
“A Candinha vive a falar de mim em tudo
Diz que sou louco, esquisito e cabeludo
E que eu não ligo para nada
Que dirijo em disparada (…)
Mas a Candinha já está falando até demais
Porém ela no fundo saber que eu sou um bom rapaz
Sabe bem que essa onda é uma coisa natural
E eu digo que viver assim é que é legal
Sei que a Candinha vai comigo concordar
Mas sei que ainda vai falar…”

Edição 573 da Revista do Rádio

 

Como não podia deixar de ser, logo após a televisão aparecer no Brasil, no início dos anos 50, o rádio reconheceu a influência do novo veículo. É o que se pode constatar a partir da edição 502, de 2 de maio de 1959, quando logo abaixo do título da revista passou a figurar a frase “A primeira em rádio e televisão”. A partir da edição 532, de 28 de novembro de 1959, o próprio título da publicação passou a ser Revista do Rádio e TV, pois cresceu o número de matérias sobre televisão, publicando-se inclusive a grade de programação das emissoras.

 

 

A Revista do Rádio deixaria de existir em 1970, poucos meses depois da morte de seu criador. Foram vinte e dois anos de informação, histórias de astros e estrelas e construção, semana a semana, dos grandes mitos do rádio brasileiro. Aliás, nada ou quase nada se divulgava sobre artistas estrangeiros, a não ser quando vinham se apresentar no Brasil. Vinte e dois anos de criação, ainda ingênua e com pequena ambição mercantil, de uma nascente cultura de massas no Brasil, num estilo que não deixaria, no entanto, de influenciar as dezenas de publicações que viriam a ser criadas no país.

obs: A Rádio em Revista é uma humilde homenagem a REVISTA DO RÁDIO.  

Arquivo histórico da Revista do Rádio:

Edições de 1 a 10 – 1948

Revista do Rádio nº 01

Revista do Rádio nº 02

Revista do Rádio nº 03

Revista do Rádio nº 04

Revista do Rádio nº 05

Revista do Rádio nº 06

Revista do Rádio nº 07

Revista do Rádio nº 08

Revista do Rádio nº 09

Revista do Rádio nº 10

Edições de 11 a 22 – 1949

Revista do Rádio nº 11

Revista do Rádio nº 12

Revista do Rádio nº 13

Revista do Rádio nº 14

Revista do Rádio nº 15

Revista do Rádio nº 16

Revista do Rádio nº 17

Revista do Rádio nº 18

Revista do Rádio nº 19

Revista do Rádio nº 20

Revista do Rádio nº 21

Revista do Rádio nº 22

1 thought on “Revista do Rádio”

  1. Tenho muitas saudades do meu padrinho Anselmo e dos dias em que eu passava la na redacao da revista conhecendo artistas e tirando fotos.Ate hoje guardo uma foto dele comigo meu pai e amigos.

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