Padre Landell de Moura


Roberto Landell de Moura, um inventor e cientista que desenvolveu suas experiências em nosso País, com parcos recursos técnicos e financeiros, estranhamente, até hoje, é um ilustre desconhecido da maioria absoluta do povo, governo e comunidade científica, inclusive no Brasil.

Num país ainda tão carente em apoiar e desenvolver sua produção técnica e científica, deixar de prestigiar a obra de Landell de Moura, é desperdiçar a oportunidade de reconhecer para a posteridade os feitos e a glória de um dos grandes gênios brasileiros.

Um dos precursores da invenção do rádio, embora não seja reconhecido.

O pioneirismo e a genialidade de Marconi não pode nem é contestado, entretanto o rádio por ele inventado e patenteado transmitia somente sinais de telegrafia, ou seja, apenas dois “sons”, que, para facilitar a compreensão, os sons “di” e “dá”, ou seja, NÃO transmitia a voz.

A 1ª transmissão da voz  humana é creditada ao cientista canadense Reginald Fessenden, em 23.dezembro.1900, numa distância de aproximadamente 1,6km. (http://en.wikipedia.org/wiki/Reginald_Fessenden)

Landell de Moura efetuou uma demonstração pública transmitindo a voz humana no dia 03 de junho de 1900., conforme noticiado pelo Jornal do Comércio de 10 de junho de 1900: “No domingo próximo passado, no alto de Santana, cidade de São Paulo, o Padre Landell de Moura fez uma experiência particular com vários aparelhos de sua invenção, no intuito de demonstrar algumas leis por ele descobertas no estudo da propagação do som, da luz e da eletricidade através do espaço (…), as quais foram coroadas de brilhante êxito. (…) Assistiram a esta prova, entre outras pessoas, o Sr P.C.P. Lupton, representante do Govêrno britânico, e sua família”.

Padre Landell de Moura merece um maior reconhecimento por parte do Governo e povo Brasileiro, pela sua incontestável genialidade, valorizada ainda mais por ter conseguido seus êxitos no Brasil, sem apoio oficial ou particular, e com todas as dificuldades de estar longe dos grandes centros científicos da época.

Foi um dos primeiros brasileiros a ter patentes reconhecidas internacionalmente.

Injustiçado e incompreendido, o êxito das experiências do padre Landell não tiverem a merecida acolhida pela imprensa e autoridades brasileiras da época, o que causou uma grande decepção ao ilustre cientista, conforme se verifica em reportagem publicada no jornal “La Voz de Espanã” (editado em S. Paulo), no dia 16 de dezembro de 1900 em que diz: “(…) quantas e que amargas decepções experimentou Padre Landell ao ver que o governo e a imprensa de seu país, em lugar de o alentarem com aplauso, incentivando-o a prosseguir na carreira triunfal, fizeram pouco ou nenhum caso de seus notáveis inventos(…)”.

Em 1903, Arthur Dias, em seu livro “Brazil Actual” faz referência a Landell de Moura, descrevendo, entre outras coisas, o seguinte:
…logo que chegou a S. Paulo, em 1893, começou a fazer experiências preliminares, no intuito de conseguir o seu intento – transmitir a voz humana a uma distância de 8, 10 ou 12 kilometros, sem necessidade de fios metálicos. Após alguns mezes de penosos trabalhos, obteve excellentes resultados com um dos apparelhos construidos (….)O telefone sem fios é reputado a mais importante das descobertas do Padre Landell, (…)e as diversas experiências por ele realizadas na presença do cônsul inglês de S. Paulo, Sr. Lupton, e de outras pessoas de elevada posição social, foram tão brilhantes que o Dr Rodrigues Botet, ao dar notícias desses ensaios, disse não estar longe o momento da
sagração do Padre Landell como autor de descobertas maravilhosas (…)”.

Observem que o livro foi escrito por um contemporâneo de Landell de Moura 03 anos depois da vitoriosa demonstração pública de 1900, e apenas 10 anos após o início das experiências de Landell de Moura em 1893. Na época da publicação do livros, Pd Landell estava nos USA patenteando seus inventos.

O Jornal “O Estado de São Paulo” em sua edição de 16 de julho de 1899 noticiou que o Pd Landell estaria às 09:00hs no Colégio das Irmãs São José, em Santana, para realizar uma experiência de telefonia sem fios, na presença de autoridades, homens da ciência e imprensa”.

Infelizmente ainda não foi encontrado nenhuma notícia informando do resultado da experiência. Entretanto é bom ressaltar, se o Pd Landell naquela época já realizava demonstrações públicas de seus inventos, é certo de que já tinha obtido êxito nas experiências efetuadas em Laboratório.

Os fatos não desanimaram Landell de Moura, que em 09 de março de 1901 obteve para seus inventos a patente brasileira nº 3.279.

Meses depois seguiu para os USA, e em 04 de outubro de 1901 deu entrada de requerimentos no The Patent Office of Washington pedindo privilégio para suas invenções, tendo obtido, após muito sacrifício pessoal, em 11 de outubro de 1904 a patente 771.917 , para um transmissor de ondas; a 22 de novembro de 1904, a patente 775.337 para um telefone sem fio e a 775.846 para um telégrafo sem fio.

Seu trabalho foi notícia em 12.10.1902 no Jornal americano The New York Herald, em reportagem sobre experiências desenvolvidas na época, inclusive por cientistas nos USA, Alemanha e Inglaterra, na transmissão de sons sem uso de aparelhos com fio.

Ressalta o jornal: …”Por entre os cientistas, o brasileiro Padre Landell de Moura é muito pouco conhecido. Poucos deles tem dado atenção aos seus títulos para ser o pioneiro nesse ramo de investigações elétricas…Mas antes de Brigton e Ruhmer, Padre Landell, após anos de experimentação, conseguiu obter uma patente brasileira para sua
invenção, que ele chamou de Gouradphone…”.

O jornal publica uma ampla reportagem sobre Landell de Moura, sua vida e obra, completada por uma fotografia do Padre, intitulada: “Padre Landell de Moura – Inventor do telefone sem fio”.

É importante ressaltar que a reportagem acima foi escrita em um jornal americano, por jornalistas que conviveram com Landell de Moura, e reconhecem que os seus feitos foram pioneiros.

Em 07 de setembro de 1984, em Porto Alegre, após um magnífico trabalho de reconstrução coordenados pelo Prof Otto Albuquerque, pela CIENTEC (Fundação de Ciência e Tecnologia do RS) e a FEPLAN (Fundação Educacional Padre Landell de Moura), foi feita uma demonstração pública utilizando-se um rádio montado com os mesmos materias usados à época por Landell de Moura, tendo sido transmitidas algumas palavras pronunciadas pelo então Governador Jair Soares.

A réplica do rádio encontra-se na FEPLAM em Porto Alegre.

Mas não paramos por aqui…

O Prof. Otto Albuquerque em seu livro “No Ar a Luz que Fala”, e o Eng. Iwan Halasz, no livro “Handbook do Radioamador”, fazem minucioso estudo técnico dos aparelhos inventados por Landell de Moura, não deixando margens à dúvidas do seu pioneirismo e funcionalidade.

O escritor Ernani Fornari, e o jornalista e estudioso B. Hamilton Almeida, (entre outros) publicaram livros baseados emextensa pesquisa, nos documentos doados por herdeiros do Pd. Landell, bem como em pesquisas nas cidades em que ele viveu, demonstrando o pioneirismo de suas invenções.

No decorrer dos anos, dezenas de artigos foram publicados ressaltando os feitos de Landell de Moura, em jornais e revistas no Brasil, (como p. exemplo, A Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Zero Hora, Veja, Superinteressante, Rev. das Invenções) bem como em Portugal, USA, Alemanha,
Argentina, Uruguai e Áustria.

Os originais das anotações e demais documentos relacionados ao Padre Landell estão em Porto Alegre, no Museu Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul.

Sobre ele:

Nascido em Porto Alegre em janeiro de 1861, Landell de Moura teve formação eclesiástica em Roma. Ordenado sacerdote em 1886, voltou para o Brasil e desempenhou atividades religiosas até sua morte, também em Porto Alegre, já no importante cargo de Monsenhor.

Em Roma iniciou seus estudos de física e eletricidade, nos quais aperfeiçoou-se como auto-didata no Brasil. É bom lembrar que aqui, Landell de Moura estava isolado dos grandes centros de pesquisas da época, especialmente França, Inglaterra e USA, só tomando conhecimento dos avanços tecnológicos que ali ocorriam meses depois, pelas poucas publicações que chegavam ao nosso país.

Além das ciências físicas, Roberto Landell de Moura se interessou pela química, biologia, psicologia, parapsicologia e medicina, sendo o primeiro cientista brasileiro com registro internacional de invenção pioneira. Suas descobertas estão servindo à humanidade até hoje.

Roberto Landell de Moura foi Cônego do Cabido Metropolitano de Porto Alegre. Em 17 de setembro de 1927 foi elevado, pelo Vaticano, a Monsenhor, e seis meses antes de falecer nomeado Arcediago, promoções que lhe foram feitas merecidamente. A Igreja Católica, reconhecento e apoiando o seu trabalho como cientista, concedeu-lhe permissão especial para viajar aos Estados Unidos da América, onde permaneceu por quatro anos para patentear seus inventos. Aos 67 anos, no dia 30 de junho de 1928, sábado, às 17:45 horas, morreu, abatido pela tuberculose, num modesto quarto da Beneficência Portuguesa de Porto Alegre, cercado apenas por seus parentes e meia dúzia de amigos fiéis e devotados.