Mário Lago

Ator, produtor, diretor, compositor, radialista, escritor, poeta, autor de teatro, cinema, rádio e TV, frasista, militante sindical, ativista político e boêmio, Mário Lago foi muitos.

Nasceu na histórica Rua do Resende, no Rio de Janeiro, em 26 de novembro de 1911, filho único de Antônio Lago, um jovem compositor, maestro e violinista de sucesso, de uma família de músicos; e de Francisca Maria Vicência Croccia Lago, jovem descendente de calabreses, oriunda também de família de músicos.

Mário Lago foi criado no bairro da Lapa, no Rio. Formou-se em Direito, mas jamais exerceu a profissão. Chegou a trabalhar como jornalista e estatístico, mas por pouco tempo. Desde criança, a arte exerceu absoluto fascínio sobre ele; uma atração igualada apenas pela política, pela boemia e pela família. A todas elas se dedicou com igual empenho e paixão.

No rádio, foi ator, autor de novelas, produtor e diretor. Seu trabalho mais conhecido foi a série Presídio de Mulheres, que escreveu para a Rádio Nacional e que liderou a audiência da emissora durante cinco anos seguidos. Em 1964, com o golpe militar, Mário Lago foi demitido da Nacional.

Quando o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) o imprensava contra a parede, na era Vargas, usava sua arma infalível, a inteligência. Um exemplo é o episódio ocorrido com a música Rua Sem Sol, como o artista contou numa entrevista a Fernando Brant e Abel Silva, para o site da União Brasileira dos Compositores, que o próprio Mario ajudou a fundar: “Eu estava cantando na rádio Tupi em 1964 e o censor perguntou: “Mário, que negócio é esse de “mas no alto da rua sem sol há uma luz sempre acesa?” Eu disse: “Você já passou, por acaso, num jardim que tem uma ladeira? Reparou que, no alto da ladeira, tem sempre uma lâmpada?” Ele disse que já. “Pois é aquela lâmpada”. Toda censura é muito burra”. Pouco depois, acabou preso e ficou dois anos sem trabalhar. Quando voltou, estava sem dinheiro e sua família passava dificuldades. Ajudado por Dercy Gonçalves, saiu da rádio direto para a TV Rio. E a vida, aos poucos, normalizou-se. No final dos anos 60, foi para a TV Globo, onde ficou mais de 30 anos. Comunista assumido, dizia contar com a tolerância de Roberto Marinho.

Mário Lago teve grande importância para o rádio quando assume uma atitude inusitada nos anos 40, ao tentar conciliar a defesa da linguagem coloquial na radionovela com um didatismo nacionalista, que defendia o uso do rádio para a educação das massas. Os ideólogos do rádio, nos seus primórdios — início dos anos 20 —, imbuídos de um projeto construtivo, buscaram uma linguagem “elevada” para este novo veículo. Desse modo, a programação, no início, consistia de palestras de teor instrutivo ou moralizante e de músicas da tradição “erudita”. Quando, na década seguinte, o rádio passou a ser usado como veículo de entretenimento, divulgando principalmente a música popular tocada no Rio de Janeiro, sofreu críticas acirradas de músicos e musicólogos modernistas. De uma certa forma, ao adotar este procedimento, Mário Lago se antecipa aos intelectuais dos anos 50 que, reunidos em torno do Centro Popular de Cultura (CPC), propõem uma arte radicalmente comprometida com o povo. A idéia básica é a de se adotar uma linguagem clara e sedutora, que não apenas seja entendida pelo público mas que também o alicie para as causas políticas em questão.

Mário Lago atuou como ator, compositor, jornalista, escritor e, apesar da decepção com a experiência soviética, nunca abandonou a militância política. Essa faceta sua nunca o impediu de freqüentar assiduamente os cafés do Rio de Janeiro, onde cultivava a vocação de boêmio. Sua atitude aberta para com o mundo, pelo que se depreende dos relatos, remonta à sua socialização no Rio de Janeiro, desde o início da adolescência, que inclui tanto os professores anarquistas do Colégio Pedro II, onde estudou, quanto as prostitutas que compunham a paisagem vespertina da Lapa. Mário Lago jamais se confinou a um único reduto — político ou artístico —, pautando-se pelo ecletismo, evitando autodefinições excludentes e tentando fruir das várias possibilidades que a vida lhe ofereceu.

Mario Lago faleceu em 30 de maio 2002.

Em comemoração ao seu centenário foi feito um site: http://www.mariolago.com.br/