Almirante


Cantor, compositor, pesquisador e radialista, Henrique Foréis Domingues era seu nome verdadeiro.

Nascido no subúrbio do Engenho Novo, estudou inicialmente em Nova Friburgo RJ, depois no Colégio Salesiano, em Niterói RJ, e em seguida no Liceu Rio Branco, no bairro carioca da Tijuca.

Em 1923 seu pai ficou doente (morreria no ano seguinte), o que o obrigou a trabalhar como caixeiro de uma loja. Fez o serviço militar na Marinha em 1926 e 1927, ganhando o apelido de Almirante, quando apareceu diante de seus amigos todo engomado no uniforme de ordenança do comandante da Reserva Naval, por ocasião das solenidades que comemoravam a chegada ao Brasil do hidroavião Jaú.

Em 1928 integrou, como cantor e pandeirista, o conjunto Flor do Tempo, de Vila Isabel, que se reunia na casa de Eduardo Dale. O Flor do Tempo, ainda em seu período de conjunto de jovens amadores, chegou a atuar em Vitória ES, em beneficio da igreja de São Gonçalo.

Em 1929, o conjunto foi convidado para gravar, mas, como era muito numeroso, foram selecionados alguns dos seus elementos; com a inclusão de Noel Rosa, morador do bairro, o grupo adotou o novo nome de Bando de Tangarás. Os integrantes eram João de Barro, Alvinho (Alvaro Miranda), Henrique Brito e Almirante. O Bando de Tangarás estreou em disco em 1929, na Odeon, com o samba Mulher exigente (de sua autoria).

No Carnaval de 1930, obtiveram seu primeiro sucesso com o lançamento de Na Pavuna (com Hornero Dornelas). O disco, gravado em dezembro de 1929, foi o primeiro a utilizar percussão (surdo, tamborim etc.) em estúdio de gravação. Quando o Bando de Tangarás se desfez em 1931, continuou sozinho a carreira de cantor.

Em 1932, ao lado de Carmen Miranda e Alberto de Barros, apresentou-se no Teatro Jandaia, de Salvador BA, e em Pernambuco.

Em 1934 gravou, na Victor, o samba O Orvalho vem caindo (Noel Rosa e Kid Pepe), que foi grande sucesso. No ano seguinte, participou dos filmes “Alô, Alô, Brasil”, dirigido por Wallace Downey, João de Barro e Alberto Ribeiro, e “Estudantes”, dirigido por Wallace Downey.

Em 1936 trabalhou no filme “Alô, alô, carnaval”, de Ademar Gonzaga, e, em 1937, gravou o choro Faustina (Gadé). No ano seguinte, entre outras, lançou, pela Odeon, duas marchas da dupla João de Barro e Alberto Ribeiro – Yes, nós temos bananas e Touradas em Madrid, muito cantadas no Carnaval. Também nesse ano atuou no filme “Banana da terra”, dirigido por J. Rui, e gravou, na Odeon, em dupla com Carmen Miranda, Boneca de piche (Ari Barroso e Luis Inglesias).

Ainda em 1938, iniciou suas atividades de radialista, pelas quais lhe foi atribuído o slogan de “A Mais Alta Patente do Rádio“. Curiosidades Musicais (1938), sob seu comando, foi o primeiro programa de rádio com montagem, no Brasil. Abandonando a carreira de cantor no inicio da década de 1940, passou a dedicar-se somente ao rádio, tendo sido responsável pelos seguintes programas: Caixa de Perguntas (1938), Programa de Reclamações (1939), Orquestra de Gaitas (1940), A Canção Antiga (1941), Tribunal de Melodias (1941), História do Rio pela Música (1942), História das Danças (1944), Campeonato Brasileiro de Calouros (1944), História de Orquestras e Músicos (1944), Aquarela do Brasil (1945), Anedotário de Profissões (1946) Carnaval Antigo (1946), Incrível Fantástico Extraordinário (1947), O Pessoal da Velha Guarda (1948), No Tempo de Noel Rosa (1951), Academia de Ritmos (1952), Recordações de Noel Rosa (1953), Corrija o Nosso Erro (1953), A Nova História do Rio pela Música (1955) e Recolhendo o Folclore (1955).

Almirante, Pernambuco, Sylvio Salema, Guimarães Martins e Anselmo Domingos. Rio de Janeiro, 1947.

A campanha de recuperação dos antigos músicos, cantores e compositores, que iniciara no rádio, em 1947, culminou em 1954 com a criação, por sua iniciativa, do Dia da Velha Guarda, 23 de abril, data do aniversário de Pixinguinha. Nesse ano, por ocasião dos festejos do IV Centenário de São Paulo, organizou na capital paulista o Festival da Velha Guarda, repetido no ano seguinte. Essas atividades propiciaram o ressurgimento de grandes nomes da música popular brasileira, então esquecidos, como Ismael Silva, Donga, João da Baiana, Pixinguinha, Bororó, Sebastião Cirino e outros. Foi também a partir desses festivais que se formou o Grupo da Velha Guarda, que atuou até 1958, integrado por Pixinguinha, Donga, João da Baiana e outros, aparecendo como cantor em algumas das gravações do grupo.

Em 1956 gravou na Sinter um LP 10 polegadas: Almirante: a maior patente do radio, com oito antigos sucessos, entre os quais o choro Faustina. Além das atividades de cantor, compositor e radialista, passou a colecionar dados relativos à historia da música popular brasileira, transformando-se numa das maiores autoridades no assunto. Em 1963, publicou o livro No tempo de Noel Rosa (Rio de Janeiro), importante contribuição à bibliografia ia de nossa musica popular. Em 1965, seu arquivo foi incorporado ao Museu da Imagem e do Som, do Rio de Janeiro.

“Almirante foi o maior radialista de todos os tempos, o sujeito que praticamente inaugurou a pesquisa de MPB no país. Foi um grande cantor e, acima de tudo, um militante da música popular”, resume o jornalista Sérgio Cabral, que lançou há dez anos a biografia “No Tempo de Almirante – Uma História do Rádio e da MPB”. Ele diz que conheceu seu biografado pessoalmente, em 1960. “Nesse ano, fiz uma entrevista de página inteira com ele para o Jornal do Brasil. Ele foi um cara que me ajudou muito quando comecei a escrever sobre música popular. O sonho dele era fazer um dicionário da música popular, com milhões de verbetes. Aí, coitado, não pôde fazer. Mesmo assim, se preparou para isso, criando um arquivo fabuloso. Decidi escrever um livro sobre sua vida porque pensei: ora, um cara que se preparou para falar da vida dos outros merecia que se fizesse um livro sobre ele”, explica Cabral, que ficou espantado com a extrema organização de seu arquivo.

Outro escritor e historiador de MPB, Jairo Severiano, atesta que Almirante é desses casos raros em que um sujeito se dedica a três funções diferentes e tem sucesso em todas. “As três tinham a ver com música, mas exigiam qualidades diferentes para exercê-las. A primeira era a função artística – ele era cantor, não tinha uma voz romântica, e sim forte, bastante entoada, com facilidade de pronunciar palavras em alta velocidade. Por isso gravou emboladas, sambas cômicos, numa linha de músicas pitorescas. A segunda função era a de radialista. Foi o pioneiro do programa montado, produzido. Antes dele, os programas eram na base do ‘Vamos ouvir’ e ‘Acabamos de ouvir’. Ele pegava um tema e o desenvolvia, com depoimentos de pessoas e um narrador. Ele educava e ao mesmo tempo divertia os ouvintes”, conta Jairo, afirmando que em 1939 ele já era um dos maiores salários do rádio e, ao ser contratado pela Rádio Nacional, exigiu que um de seus programas fosse do jeito que ele queria, criando o Curiosidades Musicais.
A terceira função, a qual Almirante se dedicou é justamente a de pesquisador, criando um importantíssimo acervo musical. “É muito difícil um artista abraçar esse tipo de atividade. Se tornou praticamente o primeiro pesquisador de música popular. Antes dele, só o Mário de Andrade. Ele envereda até mesmo pelo folclore brasileiro. Conseguiu armazenar um arquivo particular até hoje imbatível de partituras, com cerca de 35 mil”, conta.

Nasceu em 1908 e morreu em 1980.

Fontes: http://www.collectors.com.br
http://cliquemusic.uol.com.br

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