Ademar Casé

Ademar Casé, imigrante pernambucano, que foi tentar a vida e a sorte na antiga capital federal, Rio de Janeiro, nos anos 1920, não imaginava que caberia a ele a visão futurista do rádio brasileiro, quando vislumbrou as possibilidades comerciais desse novo veículo de comunicação.

Com pouco estudo, sem ter sido cantor, compositor, locutor, ator ou músico, mas com experiência em vendas (terrenos), criou um plano inédito para comercializar rádios produzidos pela Philips.

O plano era o seguinte: primeiro selecionava pelo catálogo residências que possuíam telefone – então um símbolo de status -, enchia o carro de receptores e visitava vários endereços, em hora de trabalho do chefe da família, deixando “em confiança” um aparelho que seria recolhido alguns dias depois. No retorno, a compra era quase sempre garantida.

“E assim eu vendi tanto aparelho de rádio que acabei sendo apresentado ao Dr. Augusto Vitorino Borges” [um dos diretores da rádio Philips e também um dos primeiros locutores da história do rádio no Brasil]. (Depoimento gravado, 30 set 1973).

Casé propôs à Philips o aluguel da estação objetivando por em prática algo menos convencional do que era ofertado pelas emissoras cariocas, embora não tivesse clareza como fazer.

Domingo, 14 de fevereiro de 1932. Dr. Augusto “abre a chave do microfone” e anuncia, com voz empostada: “A Rádio Philips do Brasil, PRAX, vai começar a irradiar o Programa Casé”.

O nome foi improvisado na hora pelo citado locutor, criando naquele momento a marca mais famosa da radiofonia brasileira.

Um dos fatores determinantes para o sucesso de Ademar Casé foi à aprovação de um decreto-lei liberando a publicidade no rádio. Seu talento comercial era sem limites.

Certa vez sem saber qual era o produto de um laboratório paulista, Casé, já de contrato fechado, descobriu tratar-se do “Manon Purgativo”. Não podendo perder a excelente verba, jogou a bomba nas mãos do compositor Nássara, que perpetuou este texto antológico.

“Um casal de noivos brigou. E ele, arrependido, quis fazer as pazes e se aconselhou com a sogra, pois a noiva estava irredutível. Sugerido um presente, comprou-lhe jóia caríssima. Não fez efeito. Deu-lhe um casaco de peles. Não fez efeito. Então lembrou-se de dar a ela um vidro de Manon Purgativo… Ahhh! Fez efeito!!! Manan Purgativo, à venda em centenas de farmácias e drogarias”.

Outro fator determinante de sucesso foi eleger o samba e os sambistas esteios do programa, formando um cast com nomes que ficariam na história na MPB.

Convidado por Casé para ser contra-regra do programa, Noel Rosa teve a inspiração de homenagear com música um dos anunciantes, a popular loja O Dragão, conhecida como “a fera da rua Larga”.

De intensa presença na mídia impressa, a loja O Dragão foi das primeiras a perceber a penetração do Rádio nas camadas populares, anunciando no Programa Casé.

Noel propôs à cantora Marília Batista o desafio de improvisarem versos sobre O Dragão e suas utilidades domésticas no samba “De Babado”, tema de João Mina retrabalhado por Noel.

Trajetória do Programa Casé
– Rádio Philips
– Rádio Sociedade
– Rádio Transmissora
– Rádio Ipanema
– Rádio Mayrink Veiga

Ainda faz parte da trajetória de Ademar Casé a Rádio Globo (ex- Transmissora), e a Tupi, último pouso do programa, em 1951, quase 20 anos após a estreia.

Fonte: Portal Luis Nassif.

Nota: Em setembro de 2010 é lançado o documentário: “Programa Casé – o que a Gente Não Inventa, Não ­Existe”. O Filme encanta pelo apuro técnico e pelo personagem enfocado: Ademar ­Casé, pernambucano que se apresentou ao Rio de Janeiro pulando de um pau de arara para a calçada e saltando da difícil condição de retirante para a glória do rádio brasileiro. O seu sobrenome nos é familiar, trazido no sangue pela atriz Regina Casé – são avô e neta. E é
seu marido, o cineasta Estevão Ciavatta, quem dirige o filme. Foram dez anos para o documentário ficar pronto e a demora se explica: Ademar fez coisas demais.