Abelardo Barbosa, Chacrinha

Chacrinha, ou Abelardo Barbosa, foi o maior comunicador para as massas do rádio e da TV.

Estreou na TV Tupi do Rio de janeiro em 1956, vestido de xerife, apresentando o “Rancho Alegre”. Logo depois foi para a TV Rio. Seu programa, por muitos anos, foi patrocinado pelas Casas da Banha. Daí as brincadeiras com o bacalhau -ou outro produto alimentício- jogado para o público no auditório.
José Abelardo Barbosa de Medeiros, o Chacrinha, nasceu em Surubim, cidade localizada no agreste pernambucano, no dia 30 de setembro de 1917. Foi casado com dona Florinda Barbosa por 41 anos e teve 3 filhos: José Amélio, Jorge Abelardo e Zé Renato.
“Workaholic” assumido, Chacrinha dedicou toda sua vida ao trabalho. “Acima de tudo, tentei dar ao meu programa um aspecto tropical, nordestino”, costumava explicar o “Velho Guerreiro”. Mas a tarefa para a qual ele próprio se incumbiu não era muito fácil. “Deus sabe o que me custa fazer esse tipo de programa na nossa TV tão massificada e dilacerada pela TV estrangeira”, dizia.
Trabalhou quase 50 anos, inicialmente no rádio e depois na televisão, se consagrando como o primeiro comunicador do Brasil. O palhaço do povo, como ele mesmo se definia.

Porque “Chacrinha”?
Quando Chacrinha entrou na rádio Clube de Pernambuco, em 1937, convidado para uma palestra sobre o álcool e suas consequências, o Brasil perdia um médico e ganhava seu mais célebre palhaço. Foi uma troca que valeu-lhe a fama. Chacrinha começou a estudar medicina em 1936, tentando se livrar da palavra falência que sempre acompanhou seu pai comerciante.
Dois anos depois de começar seus estudos de medicina, isto é, em 1938, caiu nas mãos de colegas já formados que o salvaram de uma apendicite supurada e gangrenada. Ainda convalescente da delicada cirurgia, ele, como percussionista do grupo “Bando Acadêmico”, viajou como músico no navio Bagé rumo à Europa, em 1939. Na volta desembarcou no porto do Rio de Janeiro, decidido a tentar a vida na então capital federal.
No Rio, Chacrinha começou sua coleção de empregos. Tentou ser locutor da rádio Vera Cruz e, posteriormente, da Tupi e da rádio Clube Fluminense, mas seu forte sotaque nordestino não combinava com a função de locutor comercial, pelo menos na época.
Na rádio Clube de Niterói, que ficava numa chácara em Icaraí, insatisfeito com a programação, onde atuava, Abelardo Barbosa pediu à direção da emissora para fazer um programa de música carnavalesca tarde da noite. “O Rei Momo na Chacrinha” vingou e foi ao ar em 1942. A fama de “doido” estava consolidada. O estilo irreverente do comunicador, que recebia seu público na chácara de cuecas e com um lenço na cabeça, acabou ganhando o apelido de Chacrinha. Após o carnaval daquele ano, o programa mudou de nome para “O Cassino da Chacrinha”, assim mesmo, no feminino.
O programa era pouco convencional. Chacrinha simulava entrevistas com artistas famosos e recriava a atmosfera de um verdadeiro cassino com efeitos sonoros malucos que não dispensavam a colaboração de galos e outros bichos que existiam na chácara. O “Cassino da Chacrinha” ficou no rádio até 1955, quando o “velho guerreiro” foi batalhar na televisão, no caso a Tupi do Rio, onde apresentava seu programa “Rancho Alegre”.
Quase todas as emissoras de televisão do Brasil tiveram o apresentador como contratado. Já em 1959 a “Discoteca do Chacrinha” era o programa mais popular da TV. O ex-futuro médico já se apresentava com as mais extravagantes fantasias. Em 1968, o péssimo humor dos censores não aprovava as maluquices e Chacrinha chegou aos anos 70 seguido de perto por eles.

O Programa e as chacretes:

Seus programas de calouros e de divulgação da MPB, como a Discoteca do Chacrinha, a Buzina do Chacrinha e o Cassino do Chacrinha foram sucesso em todas as emissoras nas quais Chacrinha trabalhou: TV Tupi, TV Rio, TV Bandeirantes e TV Globo.
A “Buzina do Chacrinha” foi criada por ele em 1968, na TV Globo, quando comandava os programas de calouros aos domingos. Às quartas-feiras era o dia da “Discoteca do Chacrinha”, programa que lançou muitos ídolos da MPB e que tinha como atração as chacretes, que se transformaram em verdadeiras musas da televisão na década de 70.
Censurado sob a acusação de pornográfico e alienado, respondia: “Eu sei o que o povo precisa para se divertir”. E, de fato, sabia. Na década de 80, quando Carla Perez e Tiazinha usavam fraldas, as chacretes faziam a alegria de milhões. Rita Cadillac, a mais famosa, foi escolhida a dedo. “Tem que ser boazuda, ter coxões e peitos grandes, porque homem só gosta de magra para casar”, dizia.

Como começou e o porque do bacalhau:

Quando o bacalhau encalhou nas Casas da Banha, seu patrocinador na TV Tupi, Chacrinha arrumou um jeito de reverter a situação. Durante o programa, virava-se para o auditório: “Vocês querem bacalhau?” A platéia disputava a tapa o produto. As vendas explodiram e ele explicou: “Brasileiro adora ganhar um presentinho”.

Durante três décadas foi líder de audiência. Em 1987, foi homenageado pela Escola de Samba Império Serrano com o tema “Com a boca no mundo, quem não se comunica…”.

Momentos finas na vida do “velho guerreiro” (apelido dado pelo Gilberto Gil)

“Ele não sofreu nada, morreu como um passarinho”, disse seu filho, José Aurélio Barbosa, o “Leleco”, produtor de seu programa. Chacrinha estava em casa conversando com um amigo, Jorge Ramalhete, quando começou a sentir fortes dores no peito. Ramalhete o carregou até seu quarto enquanto Florinda, mulher de Chacrinha, ligava para um pronto-socorro. “Eu o coloquei deitado na cama, mas ele sentia muitas dores e pediu para ficar sentado. Quando o peguei para sentá-lo, ele morreu…”, contou Ramalhete, chorando.
“Por pouco ele não morreu como pretendia: no palco”, disse o apresentador João Kleber, que há cerca de um mês vinha dividindo o comando do programa com Chacrinha. Kleber contou que no sábado, quando Chacrinha gravou seu derradeiro programa, lhe deu um abraço e um beijo ao final. “Foi engraçado aquilo. Ele já tinha se despedido e voltou ao palco para me abraçar. Parece até que sabia o que ia acontecer”, disse. Outra pessoa que participou do último programa do Chacrinha foi a atriz Dercy Gonçalves, 81. “Ele passou o programa inteiro me provocando para eu dizer um nome feio”.
“Ele era maravilhoso. Foi sem dúvida o maior gênio da TV brasileira. O velho sabia tudo, era o painho. Trabalhávamos na base do improviso e no fim do programa ele dizia: ‘Aquilo deu certo Elke, mas aquela outra piada não pegou’. Ninguém nunca vai esquecer”,

Chacrinha morreu às 23h20, em sua casa, na Barra da Tijuca, em 30 de julho de 1988 (numa quinta-feira). Segundo a “Folha de S.Paulo” do dia 2 de agosto, 30 mil pessoas passaram pelo saguão principal da Câmara dos Vereadores, no centro do Rio, para participar do velório. Abelardo Barbosa, o Chacrinha, morreu aos 70 anos de infarto do miocárdio e insuficiência respiratória (tinha câncer no pulmão). O enterro realizou-se às 16h no cemitério São João Batista, em Botafogo.

FRASES DE CHACRINHA
“Eu vim pra confundir, não pra explicar.”
“Na TV nada se cria, tudo se copia.”
“Não sou psicanalista e nem analista. Sou vigarista.”
“Alô Sarney, não perca de vista o pecuarista.”
“A melhor lua pra se plantar mandioca é a lua-de-mel.”
“Alô, Dona Maria, seu dinheiro vai dar cria.”
“Honoris causa é a mesma coisa do que hors-concours.”
“O mundo está em dicotomia convergente, mas vai mudar.”
“Quem não se comunica, se trumbica.”
“Terezinha, uuuuuhhh!”

Chacrinha era festa, era alegria, era entretenimento. Seus programas eram cheios de vida, calor humano e divertidíssimos. O povo o amava e não se esquece do Velho Guerreiro “balançando a pança e comandando a massa”, como diz a canção “Aquele Abraço” (1969), de Gilberto Gil.

Fonte: www.jornaldosamigos.com.br