História das mulheres nos primeiros vinte anos do rádio

O Rádio é um veículo fascinante. Por meio do som e das vozes brinca com o imaginário dos ouvintes. Quando de sua implantação no Brasil os artistas precursores lutaram com muita dificuldade e a improvisação foi a escola dos pioneiros.

Ao se estudar os vinte primeiros anos do Rádio (1923 a 1943), a impressão que se tem é que apenas os homens povoavam esse universo. Contudo, ao pesquisarmos esse período, percebemos que as mulheres tiveram uma participação significativa. Atuaram como cantoras, radioatrizes e locutoras. Comandavam programas, falavam de suas dificuldades com seriedade. Conheciam o papel que desempenhavam na vida de suas ouvintes, numa época em que submissão era total e o mundo girava apenas em torno do lar.A presença feminina, em determinado momento, vem subverter a ordem vigente. O reflexo que surge aí não é apenas o da classe média bem comportada, mas também a sua parcela mais emergente, que fugia dos padrões impostos.
Mostrando a evolução dos conceitos da época, na década de 30 começam a aparecer na imprensa muitas propagandas dirigidas ao público feminino. Além, também, de um crescimento visível do número de mulheres que se ofereciam para trabalhar como amassecas e cozinheiras. E outras que aceitavam encomendas de doces, para bailes, festas e casamentos.

Beatriz Roquette Pinto
Beatriz Roquette Pinto

Maria Beatriz Roquette Pinto, foi a primeira locutora do rádio brasileiro, tendo atuado na Rádio Sociedade do Rio de Janeiro – PRA-2, fundada por seu pai, o Professor Edgard Roquette Pinto, em 1923.

Em São Paulo, a primeira mulher a abraçar a carreira de speaker foi Zenaide Andrea, na Rádio Record de São Paulo – PRB-9, no início dos anos 30. Em 1931, na mesma emissora, surgiu Natália Peres, que iria consagrar-se com o pseudônimo de Elizabeth Darcy, progenitora do narrador esportivo Sylvio Luiz e da atriz Verinha Darcy.

Elizabeth Darcy (Natalia Peres)
Elizabeth Darcy (Natalia Peres)

No início dos anos 30, as emissoras de São Paulo e Rio de Janeiro já começavam a se preocupar, de fato, com uma programação radiofônica mais elaborada. Não eram transmitidos apenas trechos de música ou discursos. Surgiram, nessa época, programas de vários gêneros. E entre eles estavam os dedicados ao público mais assíduo do Rádio: o feminino.

A Rádio Cruzeiro do Sul – PRB-6, em 1932, promoveu um concurso buscando encontrar uma voz feminina que desse um colorido às suas transmissões, especialmente para o programa “Hora das Donas de Casa”; a vencedora do concurso foi Maria de Lourdes Souza Andrade, a terceira mulher em São Paulo a desempenhar as funções de locutora.

No Rio de Janeiro, um dos pioneiros foi o programa “Hora do Lar”, comandado por Aspázia, na PRC-8, Rádio Guanabara. Compreendia ensinamentos domésticos, aulas de teoria musical e conselhos de beleza. Recebia, em média, 250 cartas por mês. Conforme matéria na Revista Carioca, a locutora pretendia ficar incógnita. “Resolvi ser speaker depois que me convenci que trabalhando paciente conseguiria ampliar as finalidades do meu programa interessando satisfatoriamente aos ouvintes.”

Um programa feminino de muita repercussão nos anos 30 era “A Voz da Beleza”, da PRA-3, Rádio Clube do Rio de Janeiro. No comando estava a locutora Léa Silva. Ia ao ar diariamente das 13 às 14 horas. A Revista Walkyrias, de julho de 1936, comenta: “o mundo feminino segue atentamente seus conselhos. Um programa original e atraente. Consigna um justo orgulho à direção de uma mulher”.

A Revista “O Malho” de 11 de junho de 1935 destaca que entre os programas do gênero, “A Voz da Beleza” era considerado o melhor do gênero.. “Através do espírito de Léa, torna-se o Rádio um objeto de primeira necessidade para a mulher que quer ser elegante e sedutora.” Num tom de crítica, a revista completa: “um programa dedicado às mulheres e naturalmente pouco ouvido pelos cronistas de Rádio”. A Revista A Cena Muda de 26 de fevereiro de 1946, comentava que a locutora parecia ter compreendido o verdadeiro sentido da radiodifusão, pois parou de ler as cartas elogiosas que recebia dos ouvintes e melhorou o nível do programa. “Hoje, Léa mudou. Efeito do tempo? Seu programa para o sexo frágil merece ser ouvido. Além de seus conselhos, toca músicas… é alguma coisa que se recomenda no Rádio carioca.”

“A Voz da Beleza” fez escola em diversas cidades do interior. Em Santos, estado de São Paulo, havia um programa, com o mesmo nome, comandado por Adelina Pereira da Silva. Ao fazer uma visita ao Rio de Janeiro ouviu programa na Clube e se encantou. Assim que voltou a Santos, Adelina procurou a Rádio Atlântica e iniciou, em 1937, um programa parecido e que ia ao ar diariamente das 15h30 às 16h30; adotou então o pseudônimo de Lina Léa. Ela usava esse horário para falar sobre formas de beleza, noções de tratamento de pele, cabelos e ginástica. Foram ao todo 26 anos de atividade, sendo seis na Atlântica, 14 na Rádio Clube de Santos e seis anos na Cacique.

A Rádio Transmissora do Rio de Janeiro apresentava, em 1937, “De Mulher Para Mulher”, comandado por Irma Gama. Um programa que promovia uma troca de conhecimento entre todas as mulheres, servindo ao mesmo tempo de guia e conselheiro. “Trabalhando e notando o trabalho de outras criaturas, lembrei-me um dia de organizar um programa radiofônico que trouxesse à mulher alguma utilidade”, declarou Irma para a revista Carioca de 30 de janeiro de 1937. Havia, também, uma preocupação com a culinária, com a literatura, orientação psicológica pelo microfone ou particularmente para o endereço das ouvintes.

Uma mulher que teve seu nome sempre ligado à história do Rádio foi Ismênia dos Santos. Atuou em diversas atividades radiofônicas. No caso dos programas femininos, comandou o “Programa das Damas”, onde lia crônicas de Genolino Amado e ensinava fundamentos sobre beleza, conseguindo um grande número de fãs. A Revista Carioca de 30 de janeiro de 1937 afirmava ter Ismênia “uma voz mansa e verdadeiramente feminil”, que agradava os ouvintes da PRE-8. Sobre seu sucesso declarou, em 1937que se sentia à vontade dentro de suas novas funções e procurava sempre se aperfeiçoar. “Gosto de saber quando estou agradando ou não. Entrei para o Rádio para ser uma artista. Já fiz “Sketes”, humorismo e canto. Acabando como speaker tenho a impressão de estar iniciando uma coisa nova”.

Outra locutora de destaque, que exerceu várias funções no Rádio, foi Ilka Labarthe. Entre seus programas mais conhecidos estava “A Hora Feminina”, da Cruzeiro do Sul, Rio de Janeiro. Em reportagem à Revista da Semana, de julho de 1940, mostrou a importância de seu trabalho.

A jornalista Silvia Autuori iniciou sua carreira, em São Paulo, no Diário da Noite, atuando, em 1934, como cronista e repórter. Depois foi para o Rio de Janeiro e assumiu “A Hora Feminina”, da Rádio Ipanema. Quando a Tupi foi inaugurada, em 1935, Silvia passou a transmitir um programa infantil. Ela declarou à Revista do Rádio de 27 de junho de 1950 que a ideia era muito interessante. “Nesse tempo eu estava tentando a carreira no Rádio com
um programa feminino que de modo nenhum me agradava. As senhoras queriam receitas de bolo e tinturas de cabelo, tomei ojeriza por esses programas.”
Quando ainda era estudante de Direito, Nena Martinez começou atuar na Ipanema, PRH-8. A locutora declarou à Revista “A Cena Muda” de dezembro de 1952 como surgiu a vontade de realizar um trabalho dedicado às mulheres. “A ideia era falar sobre os assuntos que mais dizem respeito ao sexo fraco, elegância, culinária, pediatria, etc. Faço questão de afirmar que no meu programa não tenho consultório sentimental, porque acho que ninguém tem capacidade de resolver os problemas alheios, se às vezes não conseguimos resolver os nossos.”
Nena Martinez formou-se em Direito, em 12 de dezembro de 1942, pela Faculdade Nacional de Direito do Rio de Janeiro. “É talvez a única locutora a usar o Dr. antes do nome”, enfatizava a Revista “A Cena Muda”, de outubro de 1944.
Em 1939, Sonia Veiga transmitia, pela Transmissora do Rio de Janeiro, um programa após o meio-dia dirigido à mulher. A Revista “O Malho” de setembro de 1939 explicava que a locutora havia deixado o teatro pelo Rádio e agradava “porque Sonia é inteligente e capaz de grandes iniciativas, sabe viver por si mesma”. Nesse mesmo ano,
Marisa Salomão apresentava, também na Transmissora, “A Nossa Palestra”, com crônicas sociais, noticiários, comentários artísticos, além de conselhos de beleza.
Elza Marzulo comandava todas as tardes, na Tupi do Rio de Janeiro, o programa “Elegância e Beleza”. Além disso, a locutora participou também dos programas de Almirante, entre eles, “Caixa de Perguntas”, “Tribunal de Melodias” e “Curiosidades do Folclore”, junto com Manoel Barcelos e Raul Brunini.

Uma artista que fez muito sucesso no Rádio foi Sagramor Scuvero. A “Revista da Semana” de maio de 1946 conta como tudo começou. A locutora chegou ao Rio de Janeiro por volta de 1934. Já havia criado nas emissoras de São Paulo “um gênero inédito, certamente modernizado de programas femininos, aos quais soube imprimir um cunho altamente moral e uma finalidade construtiva”. Sagramor não se especializou apenas em ler páginas românticas ou dar conselhos de beleza e receitas culinárias, embora essas modalidades também constassem de seu trabalho cotidiano.

O programa de maior sucesso e que consagrou definitivamente a locutora foi “O Mundo Não Vale O Seu Lar”. A Revista “A Cena Muda” de 18 de agosto de 1946 explicava que Sagramor Scuvero criou com seus programas “uma verdadeira auréola de simpatia em torno do seu nome”. Era difícil encontrar alguém do “sexo frágil” que não fosse sua ouvinte obrigatória. Poetisa, escritora de livros infantis, radiofonizou, também, a vida dos grandes cientistas. Recebia um grande número de telefonemas e uma volumosa correspondência de seus fãs. Casou-se com seu colega de Rádio, o escritor e redator Miguel Gustavo. No dia da cerimônia religiosa, a igreja ficou superlotada e o centro da cidade do Rio de Janeiro parou.

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Em 1942, um anúncio do mês de agosto na “Revista da Semana” chamava a atenção para a programação apresentada diariamente, às 13 horas, por Sagramor: Um Programa da sua PRA-9 para a Mulher Brasileira.

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A cada dia o programa enfocava um tema diferenciado. “Para Você, Mãezinha”, uma audição com um médico pediatra que respondia às consultas dos ouvintes; “Cozinhando pelo Rádio” , uma irradiação diretamente da cozinha de uma ouvinte com todos os ruídos e detalhes da feitura de um prato gostoso. “Marcha Nupcial”, dedicado às noivas, ao enxoval, ao futuro lar, com o clube das Noivas que atendia solicitações de modelos e sugestões.“O Mundo Não Vale Seu Lar”, Uma audição dedicada à solução das pequenas dificuldades diárias de um lar, com o clube da economia, sugerindo planos de gastos e de tempo. E, por fim, “Moda, Elegância e Beleza”, um espaço para as jovens recebem conselhos de maquiador, cabeleireiro e um figurinista que respondiam sobre o tema “Qual o Seu Tipo”. Sagramor também atuou na política. O escritor Sérgio Cabral conta no livro “No tempo de Almirante: uma história do Rádio e da MPB, de 1990”, que, em 1947, a locutora era muito famosa e se candidatou pelo Partido Republicano a um cargo de vereadora. Nessa eleição foram eleitos dois radialistas: ela e Ari Barroso.

Trabalho apresentado ao GT História da Mídia Sonora, do V Congresso Nacional de História da Mídia, Facasper e Ciee, São Paulo, 2007. Por Tereza Cristina Tesser

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