Funk

Em setembro, completou 1 ano em que foi promulgada a lei que reconhece o funk como movimento cultural. A polêmica está no ar. Os admiradores fazem aumentar a audiência das emissoras que destinam grande parte de sua programação ao gênero. Outros afirmam que o estilo tem baixa qualidade harmônica e letras que, além de mal feitas, fazem apologia à violência e à pornografia. Com a palavra…

francisco_barbosaFrancisco Barbosa / comunicador:
“O som do ‘funk brasilis’ é absolutamente diferente do americano, origem de tudo. É claro que, como em todas as correntes musicais populares, há muito lixo. Mas, se você não for preconceituoso nem preguiçoso,vai encontrar delícias,de humor incomum e swing irresistível. Há, até, uma corrente infantil e muito divertida que ouço com meus filhos e recomendo a todos. O funk brasileiro é definitivo”.


Eduardo Andrews

Eduardo Andrews / diretor artístico:
“Trabalhando com os mais diversos estilos de rádios e, por consequência, os mais diversos estilos musicais, a gente percebe que o preconceito prevalece e que qualidade nesse assunto é muito subjetiva. A autenticidade do funk é sua maior qualidade. É verdadeiro. É o grito da grande massa jovem. E fala a sua língua. Sou fã.”


PBPaulo Beto / Locutor:
“Nesses quase 30 anos de rádio, tive a oportunidade de trabalhar com o funk em vários momentos, em várias emissoras. Apesar da lei, o reconhecimento como cultura popular ainda está longe. Vejo o funk sempre associado a cultura marginal, criminalidade e, mesmo quando tem méritos de algum artista despontar, é visto com reservas. Claro que formadores de opinião, que defendem e apóiam o movimento, ajudam muito nesse processo de discriminação. Mas, se precisou de lei pra ser movimento cultural e a lei não consegue ser cumprida, é sinal de que a coisa ainda vai demorar pra acontecer.”


djmalboro1

Malboro / DJ:
“As pessoas que criticam deveriam cuidar melhor da educação e cultura do nosso país. A culpa não é dos funkeiros e sim das autoridades que não dão educação ao nosso povo. Eles cantam a realidade deles da maneira deles. Eu, como produtor musical, sempre cuido de consertar os erros no estúdio, pois me preocupo com a qualidade do funk. Com relação à parte musical, lembro que o samba também não era compreendido musicalmente no início, mas depois foi absorvido e hoje é o que é. Qualidade harmônica é questão de gosto, muitas músicas muito simples fizeram muito sucesso e ter complexidade harmônica não é sinônimo de qualidade musical.”


luci moret

Luci Moret / programadora musical:
“Eu acho que esse é o tipo de lei que a gente se pergunta: “Ué? Mas o funk já não era considerado um movimento cultural?” Bom ou ruim é a cara da nossa cidade. Um espelho da nossa cultura popular. Não sendo ofensivo e não fazendo apologia a crimes ou drogas, acho que só tem a acrescentar.”


Joao FilhoJoão Filho / diretor artístico:
“Sinceramente. Demagogia demais esse assunto FUNK! Provavelmente se a população recebesse uma educação melhor, as letras teriam mais conteúdo, mas o que é qualidade? O que é conteúdo quando temos programas como o BBB ou a Fazenda no ar? As Rádios tocam o que o povo quer ouvir. A função do Radialista é perceber movimentos, sejam populares ou não. Sempre foi assim, ou alguém acha que algum Radialista vai procurar um artista pedindo: Grava um Funk! Faz um Rock pra eu tocar? Chamar de movimento cultural é uma questão pra ser vista em 2030.
O fato de ser uma música que surgiu na favela não faz dela pior ou melhor! O que era o sambista nos anos 30, 40? Existe democracia no dial, existe a internet explodindo em opções, o Rádio já carrega muita energia negativa. Radialista não compõe, não produz, não edita, não canta… Parem pra pensar: quantas Rádios populares temos no dial do Rio de Janeiro? 3? 4?. Quantas Rádios qualificadas temos 3? 4? Esse papo deixa muita gente animada, muitas opiniões. Estamos falando do Rio de Janeiro ou Berna / Suíça ?”

romulo


Rômulo Costa / Fundador da Furacão 2000:
“Comemoramos há pouco 1 ano da lei que reconhece e define o funk como movimento cultural e musical de caráter popular, garantindo condições de igualdade em relação a outros ritmos musicais. Entretanto, como é intrigante que a música preferida de milhões de jovens não tenha consolidado sua presença nos meios de comunicações tradicionais, a chamada grande mídia! Tirando aparições esporádicas das “mulheres frutas”e um ou outro artista de funk na TV, muito pouco mudou desde a aprovação da lei, que chegou até a ser denominada de “lei de alforria do funk”. Por parte da gravadoras e veiculos comerciais não houve seguramente nenhum movimento que alterasse o padrão midiático historicamente destinado ao funk. Ou seja, tudo continuou como antes.
A base do funk ainda é sua própria mídia. Mesmo assim, é impressionante como o funk jantem aquecido o seu mercado de shows e eventos e parou de crescer.Sinal de que ainda somos muito fortes. A todo momento, surgem novos talentos que garantem a renovação e o fortalecimento do ritmo.Sobre as críticas que são feitas ao conteúdo e algumas letras, não se deve generalizar. Há, ainda, muito preconceito. Pode-se criticar o mau gosto de determinada música de funk, mas não se pode dizer que não existe a boa música de funk. A generalização só faz reforçar o preconceito.”


corello

Corello DJ:
Sob a ótica cultural, não vejo mérito no movimento funk, mas como a definição da palavra “cultura” é vasta, toda e qualquer afirmação beira a discussão acadêmica. Eu vejo o crescimento do funk como resultado de um declínio do pop orientado, leia-se gravadoras. No início dos anos 80, era comum um coordenador de programação determinar o-que- seria-sucesso-depois-do-carnaval. Com esse poder nas mãos, a mídia de massa deitou e rolou. Tivemos movimentos bregas em Rádios populares, rock nacional, pop rock e new wave em Rádios jovens, logo depois veio a lambada, sertanejo, etc…
O primeiro sinal de que algo estava mudando veio com a atitude de uma Fm do Rio que deu voz àqueles que não se viam “representados” no dial. Toda a zona norte, oeste e baixada fluminense conviviam em harmonia com os pagodes e bailes blacks(*) desde os anos 70. Essa cultura invisível até então tornou-se a mola para uma revolução no Rádio carioca. A mistura de pagode e funk atingiu em cheio as pessoas que tinham que adorar artistas impostos pela grande mídia.
Quando o funk saiu dos morros, deixou de ser coisa de preto favelado e ganhou a “alforria” de Movimento Cultural, a realidade desses artistas não mudou. Não se consegue ver a melhora financeira de nenhum deles. Os lucros continuam nas mãos de poucos. Falta ainda no movimento a figura do MC empreendedor, que ajude a transformar a péssima imagem do segmento, comumente associada à pobreza, marginalidade e promiscuidade. Só vou achar válido o título de “cultural” quando os verdadeiros heróis dessa transformação de costumes forem financeiramente reconhecidos. Afinal, aquela máxima do “eu só quero ser feliz e andar tranquilamente na favela onde nasci” soa romântico demais, resignado demais. Excluído, como sempre.

(*) Bailes Blacks, berço da Soul Music -Funk 70, Charme, Funky Melody, Funk Carioca.

Matéria da capa Rádio em Revista 3 / outubro 2010

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