Existe Jornalismo Esportivo Feminino?

mulheres no futebol

Presença numérica majoritária nas redações e significativa nas editorias de esportes, embora deficitária nos aquários que delimitam o tamanho dos peixes e das focas, as mulheres começam a mudar o formato do jornalismo esportivo. Rádios e televisões já não se limitam a abrir-lhes o microfone e as câmeras; desde há alguns poucos anos, programas ou quadros em que apenas mulheres participam comentando futebol e outros esportes começam a ocupar a grade das emissoras. Essa espécie de mesa-redonda da luluzina é sempre louvada como um espaço no qual prevalece a “visão feminina do esporte”, o que leva à conclusão de que, ainda predominantemente masculino, o jornalismo esportivo é dominado, nas formas de falar, escrever e moldar a cosmovisão esportiva, por valores machistas. Daí que as mulheres, exercendo-lhe necessário contraponto, veem o esporte de forma diferente; poder-se-ia falar, portanto, em jornalismo esportivo feminino, expressão já ouvida e entreouvida em palestras e cursos universitários.
Contudo, aludir a isso significa haver um tipo de jornalismo cuja substância e  essência seja exclusiva e atávica às mulheres e, por consequência e obviedade, impossível de ser praticada pelos homens. Não é o caso. Não existe “jornalismo esportivo feminino”; existe, isto sim, “jornalismo esportivo”, que é praticado tanto por homens quanto por mulheres. Mesmo que a questão seja o número de mulheres que atuam na área, o termo também não se justifica. Porque, repita-se, não se trata de um tipo de jornalismo que só às mulheres é dado o dom do ofício.
Quando, nos esportes, uma modalidade é praticada só por mulheres, dizemos, por exemplo, “vôlei feminino”,  “basquete feminino” apenas por convenção e facilidade e porque a prática desses e outros esportes coletivos separam-nos por gênero. A rigor, não existe nem vôlei nem basquete “femininos”: é claro que a separação cria estilos diferentes de praticar o esporte, mas este é o mesmo, sua essência é a mesma: o que é saque para os homens o é para as mulheres. De modo que o certo seria “vôlei praticado por mulheres”, mas, convenhamos, é uma expressão pouco eufônica e algo pedante.
Se deslocarmos nossa atenção para o conteúdo do que é dito pelas mulheres-comentaristas, não perceberemos mudança significativa em relação à opinião de comentaristas homens. É meio óbvio, mas é preciso dizer: homens e mulheres podem ter a mesma visão sobre tática, jogadas, se foi pênalti, se o técnico escalou o jogador correto etc; não é o fato de ser homem ou mulher que vai fazer de alguém bom ou mau comentarista, e sim o seu nível de entendimento sobre o esporte.
Esses programas são divertidos, leves, criativos, bem-feitos, e é bom que eles existam.  O problema está nos valores que, explícita ou subliminarmente, podem transmitir: querendo ressaltar que futebol também é coisa de mulher, acabam por enfatizar uma visão esteticista, da forma em detrimento do conteúdo, mesmo porque a televisão exige um padrão de beleza. E, ao contrário do que pretendem, reforçam a visão estereotipada e machista. A gravidade deste paradoxo é maior quando, em vez de falar sobre esportes, as mulheres são instadas a fazer revelações sobre atributos físicos dos jogadores de futebol e sobre futricas irrelevantes.
Há poucos anos, uma universidade criou um curso voltado para as mulheres que desejavam ingressar no jornalismo esportivo. Homem estava fora: não poderia participar. O programa do curso previa discussões sobre questões práticas da profissão, como o mercado de trabalho da profissão, a diferença salarial, o assédio etc. Ora, se se trata de questões cotidianas que se dão justamente pelo entrelaçamento, no mesmo ambiente de trabalho outrora restrito aos homens, de homens e mulheres em que estas se veem numa posição ainda de inferioridade, aí é que os homens deveriam poder participar, mas isso é pouco: são eles, os homens – ou deveriam ser -, os principais receptores das mensagens que as mulheres emitirão no evento. É aos homens, ainda viciados em práticas machistas e discriminatórias (não são todos, mas muitos), que esse tipo de curso deveria ser destinado. Senão, torna-se totalmente contraproducente, limitando-se a listar algumas dicas de condutas que valem para qualquer atividade profissional (não usar roupa curta, decotes etc.); e, assim como as mesas-redondas femininas, ao invés de contribuir para diminuir as diferenças e na profissão, só deixará no rastro delas as pegadas da diferença.
por Bruno Filippo  -Jornalista, sociólogo
março / 2014

 

3 thoughts on “Existe Jornalismo Esportivo Feminino?”

  1. Concordo com o autor, sempre brilhante e convincente em seus argumentos. Não existe jornalismo esportivo, político, econômico, policial, geral da mulher. O jornalismo é um só, praticado por ambos os sexos. A mulher, atualmente, está presente em todas as profissões, antigamente só exercidas por homens. Presença numerosa na magistratura, advocacia – mas, não existe Direito masculino nem feminino. O Direito é um só, assim como a Medicina, Engenharia, construção civil, mecânica, motorista profissional e outras, em que a presença da mulher se tornou patente. Homem e mulher se completam no trabalho, que não tem sexo.

  2. O país onde os homens adoram bundas, dificilmente conseguem separar e admitir que elas podem sim, dar um show de conteúdo jornalístico. O problema está muito mais nos homens do que nas meninas. Mas é verdade também que algumas usam e abusam da sensualidade para conquistarem o espaço que tranquilamente seria delas apenas com o conhecimento sobre o tema. Falar do texto do antropólogo e jornalista sem rasgar sedas é praticamente uma missão impossível.

  3. bem, em qualquer profissão , seja no esporte jornalistico,problema é que, nós mulheres ainda estamos ”caminhando a passos lentos”, é dai que surge a forma machista dentro de uma belissíma profissão. devendo ser igualitária ,sem essa de que só o homem pode ou deve entender de futebol,ou qualquer outros esportes,”nada disso”. A mulher também, possuí, uma enorme competência, tanto como comentarista, esportiva entre outras modalidades com “ufc, fórmula l etc”. este termo “machista em pleno séc xxl” torna-se de uma redundância lúdica,terrível,no jornalismo, ambos tem sua competência, dentro do assunto falado ou escrito. portanto dentro do esporte não vejo diferença alguma do homem, para a mulher.”somente o sexo feminino, masculino..”

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