Evaldo José

Evaldo Jose

Evaldo José começou a narrar futebol no mesmo ano em que o Flamengo tentou conquistar o mundo formando o famoso ataque dos sonhos. Natural do interior do Paraná, de Formosa do Oeste, está no Rio desde quando Maurício pediu “licença” ao zagueiro do Flamengo e deu o título para o Botafogo. 

Rádio em Revista: Como começou a sua relação com o rádio?
Evaldo José: Eu devo muito ao meu pai que era o cara que adorava rádio. A gente praticamente cresceu assim, lá no interior do Paraná, no meio do mato, lá na roça, ouvindo rádio e, principalmente, ouvindo futebol.
Ritual que ele sempre cumpria quando acompanhava os jogos do Internacional e do Grêmio. Ele é colorado apaixonado.
Esse ritual ficou muito marcado na minha mente, na minha memória e o início da minha história, do meu contato com o rádio, está muito ligado a minha infância. Embora, eu nunca imaginasse que um dia fosse trabalhar nesse veículo.
Se volto na minha memória, encontro o meu pai lá, sentadinho, e a gente sentado junto com ele fazendo aquele ritual de ouvir futebol pelo rádio.

RR: Fazendo uma ponte com o que você falou, quais eram os narradores que você admirava?
EJ: Todos aqueles que chegavam nas “ondas curtas” lá no interior do Paraná. A região de onde eu venho, (a cidade de Formosa do Oeste) era uma região que tem uma colonização gaucha.
O pessoal que veio do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina iam trabalhar nas rádios Guaíba e Gaúcha de Porto Alegre e era o que ouvíamos, raramente entrava a Rádio Nacional do Rio, Rádio Globo ou Rádio Tupi, em algumas noites entrava, aí dependia, pois as “ondas curtas” são uma coisa de louco! As vezes entrava a [Rádio] Globo de São Paulo, com Osmar Santos narrando. Mas, os narradores de “Guaíba” e “Gaucha” eram o que a gente mais ouvia, o estilo deles de narrar é que mais me influenciavam.

RR: Além de narrador, você também é professor de filosofia. É isso?
EJ: A gente tenta , cara. Fazer o quê….(risos)

RR: Você começou no rádio e foi dar aula de filosofia ou foi ao contrário?
EJ: As duas coisas foram meio parecidas. Eu estudei 3, 4 anos de filosofia. Fiz a faculdade completa de filosofia e já comecei a dar aula. Em seguida eu percebi que algumas emissoras exigiam o diploma e eu fui correr atrás de um curso de comunicação, um curso de jornalismo.
Mas a filosofia entrou na minha vida mesmo e, depois, o magistério, que é uma coisa que nesse momento eu estou vivendo, pois estou na parte de coordenação. Adoro a matéria e o contato com os alunos. Essa questão da relação com as pessoas eu acho muito bacana! A filosofia é uma ciência que envolve todas as áreas.
Qual o objeto que a filosofia estuda? Tudo e nada. Pra quê que serve a filosofia? Pra tudo e pra nada. É uma ciência muito bacana e bota a garotada para pensar.

RR: Voltando ao rádio, como foi o início de sua carreira no rádio?
EJ: Para o cara que entrou na Escola de Rádio e nunca pensou que fosse possível fazer rádio, pode surtar e isso entrar na sua vida.
Eu tenho uma história bacana, porque um dia eu abri o jornal de domingo e encontrei lá “Curso de Locução na Biblioteca Pública do Rio de Janeiro” e fui fazer o curso de locução. E, como última atividade desse curso, a gente foi fazer um estágio de madrugada numa rádio que só pegava lá no quarteirão, cobertura de baile de carnaval. Mas o cara (Sergio Luis) gostou da minha participação! Esse cara revelou muita gente para o rádio no Rio de Janeiro. Ele me convidou para ajudar na produção do futebol, onde ele fazia plantão. Ele era o cara que falava “olha o gol”.
Mas como é que ele sabia dessa parada toda? Antes da internet, quem avisava a ele era o pessoal que trabalhava na apuração, então, fui trabalhar lá. Como fazíamos? Ligávamos para o estádio ou para uma outra emissora de rádio de uma outra cidade para saber quanto estava o jogo. Aí o narrador dava no ar a informação.
Eu era o cara da apuração.
Um dia o locutor ia fazer um “geladão”(uma narração de estúdio) e não conseguiu chegar a tempo, como não tinha ninguém no sábado a tarde na rádio que pudesse narrar, ele falou:
“-Oh Palatinsky me ajuda aí?” E eu falei “-não tenho ideia de onde começar” e ele respondeu “-faltam 5 minutos para abrir, vai lá!” e eu fui.
Peguei a escalação em cima da hora, sentei lá e fiz a narração.
Nos primeiros 5 minutos secou a garganta, deixei o microfone de lado e falei: “-cara não aguento mais, não sei mais o que falar”. Eu imitei todo mundo que veio a minha cabeça. Garotinho, Edson Mauro, Jorge Cury, Waldir Amaral, Osmar Santos….todo mundo que veio a minha cabeça eu imitei naquele dia.
A transmissão naquele dia foi horrorosa. Quando acabou a transmissão, o Locutor chegou e falou “-Evaldo,obrigado. Você quebrou um galho legal pra gente, mas volta para apuração e fica lá, pois a coisa que você não leva jeito é falar no microfone!” Eu não levei isso como maldade, pois de fato a transmissão foi ruim e depois daquele dia eu passei a ouvir com mais atenção.
Seis meses depois pedi uma outra chance para o nosso comandante que me permitiu recomeçar. Dois colegas, que eram também de apuração e estão hoje no rádio, Eugênio Leal(Rádio Tupi e Fox Sports) e Rodrigo Campos (Bradesco Esportes FM) foram testemunhas desse momento que o cara falou “-Palatinsky, volta para apurar que o microfone não é o seu forte não!”
RR: E como foi o convite para trabalhar no Sistema Globo de Rádio?
EJ: Foi em 2003. Quem me convidou foi o Álvaro Oliveira Filho (comentarista da Rádio CBN), um dos caras que mais me ajudou ao longo da minha carreira, porque acreditou, porque apostou, porque me deu oportunidade e na época eu vim para trabalhar na Rádio Globo. Houve um incentivo do José Carlos Araújo. Ele sempre que me encontrava dizia: “-Boa garoto! Vou te levar pra trabalhar lá!” E eu fiquei aqui [ na Rádio Globo] por dois anos. Em 2004, a CBN passou para o FM e, desde o dia 4 de julho de 2004 e desde então, estou só na CBN.

RR: De onde surgiu o bordão “Que lindo!” ?
EJ: Esse grito surgiu no gol do Petkovic no tri-campeonato do Flamengo, em 2001. Eu trabalhava na Rádio Brasil ainda. O Felippe Cardoso (hoje comentarista da Rádio Globo) era o nosso comandante e comentarista. Só que o Luiz Mendes, que fazia um programa de debates no domingo na hora do almoço (Momento Esportivo), ouviu o meu gol, me encontrou no Maracanã e falou:
“-Garoto,esse grito é muito bacana!”. Eu falei “-Mendes, o “que lindo!” é só para gol que foi muito bonito” e ele respondeu “- Olha, para o torcedor não tem gol feio. Então qualquer gol contra, de barriga, de lateral, de canela…você pode meter o “que lindo!” que isso vai marcar.”
E quem era eu para contrariar o mestre Luiz Mendes. Segui os conselhos dele e não me arrependo não!!!

RR: Qual a diferença das transmissões esportivas da CBN para as demais emissoras?
EJ: Começou quebrando as estruturas tradicionais, o modelo que a Rádio Globo ou a Rádio Tupi sempre apresentavam uma plástica toda voltada para o futebol, o de centralizar muito na figura do locutor, de um grito permanente, o repórter “cantando”, gritando o tempo todo e a CBN começou quebrando muito esse modelo. Por isso que, talvez ela tenha sofrido para encontrar o espaço dela. Mas hoje ela encontrou. Acho que uma coisa que contribuiu muito para isso foi a interatividade. Nós praticamente abrimos o espaço para trazer o ouvinte para dentro do rádio no sentido de criar a interação durante o jogo desde o primeiro momento que surgiu as redes sociais. A gente acoplou isso em nossa transmissão e era uma transmissão de mão dupla. Desde o início, e a galera gostou dessa proposta, porque ninguém é o dono da verdade. Para o público de futebol a interatividade, o dinamismo que a transmissão sugere você não pode ter uma opinião única. Quem é a opinião na CBN? Cada um tem sua opinião. Inclusive eu, como ouvinte, se quiser, eu dou minha opinião e ela está sendo colocada com a mesma democracia. E hoje conseguimos uma plataforma em que ela agrega o Twitter, o WhatsApp, onde o cara manda mensagem o tempo inteiro. E isso salva o jogo ruim, pois quando você está debatendo com alguém a partida pode não estar lá naquele marasmo, mas a discussão está quente e isso é muito interessante.

RR: Qual foi o gol mais marcante que você tenha narrado?
EJ: O gol do Thierry Henry em 2006, em Frankfurt. E eu estava lá! O Raí(comentarista da CBN na época) falou “-Se eu fosse o[Carlos Alberto] Parreira hoje, fazia uma marcação especial em cima do Zidane. O Parreira não fez, o Brasil não fez… e a gente tomou aquele baile naquela eliminação da Copa do Mundo da Alemanha.
Também gosto de lembrar do gol do Washington naquele 3-1 do Fluminense sobre o São Paulo, na Libertadores de 2008. O nosso trabalho naquela noite foi muito legal.
Eu gosto de lembrar do gol do Jorge Henrique na Copa do Brasil, no primeiro jogo contra o Flamengo.O Vasco estava no chão, na lona, prostrado, derrotado, humilhado e o Jorge Henrique recebe aquela bola do Riascos e manda no ângulo. Quem é vascaíno vibra com aquele momento, porque era o Vasco ressurgindo e em seguida é que foi em cima do Flamengo.
Eu gosto de lembrar do gol do Flamengo onde o Luiz Antônio pega da “meia lua” da grande área de sem pulo, na veia. No dia em que o Petkovic fez aquele gol em 2001, ele mandou no mesmo ângulo. Um negócio fenomenal.
Tem muitas narrações, onde tenho muita história pra contar, pois são quase 20 anos nessa “brincadeira”, jogos quarta, quinta, sábado e domingo, é muita coisa pra lembrar!…
Só um detalhe, voltando ao gol do Henry, foi o único que eu não gritei “Que lindo!”.Eu gritei “Que pena!”. Eu queria falar outra coisa, mas eu falei “Que pena!”.

RR: Como foi narrar uma Copa do Mundo aqui no Brasil e quais são suas expectativas para os Jogos Olímpicos de 2016?
EJ: Eu tinha grandes expectativas sobre o fato da Copa ser no Brasil. Eu já tinha cobrido da Alemanha(2006) e na África do Sul(2010). E imaginava “a Copa do Mundo no meu país, com o Brasil jogando”… e a CBN dividiu as escalas no modo que o Deva[Pascovicci, locutor da CBN em São Paulo] fez a narração da abertura com o Mário Marra (comentarista da emissora também na capital paulista). E eu e o Álvaro faríamos. Claro, com o Brasil campeão do mundo, não tinha outra possibilidade. Mesmo esquema da Copa das Confederações que deu certo. Então, começando pela última pergunta, foi um pouco decepcionante nesse sentido. O 7 a 1 não estava no cardápio do mais pessimistas dos torcedores. Mas, a experiência de uma cobertura internacional é sempre legal, super enriquecedora. Você aprende muito com a cultura do país. A Alemanha, daqui a 50 anos, a gente não vai chegar onde eles estavam à 10 anos atrás, um negócio fantástico em todos os sentidos, da educação, da evolução da cultura do país e tudo mais. A África,que lições de histórias para a humanidade por toda questão racial que a África viveu.. como um país tenta criar um conceito de nação falando 25 idiomas diferentes e o futebol, que chegou lá e aconteceu um pouco do que aconteceu aqui. Não levou a melhoria que poderia ter levado. E nesse sentido lhe respondo, as minhas expectativas para as Olimpíadas, acho que o Brasil ganha a Olimpíada, pode ter medalha com a melhoria do transporte público, talvez o metrô, mas é muito pouco no que se pensou de metrô. É alguma coisa para quem não tinha nada. Mas só ligar até a Barra e não criar mais uma outra alternativa indo para São Gonçalo, não ter chegado a Baixada Fluminense é muito pouco para quem está precisando tanto de melhorar a mobilidade urbana. Na questão ambiental vamos tomar goleada. Medalha de lata para gente na questão ambiental; Então,é uma pena,porque era uma chance enorme,um pretexto muito bom de se melhorar tudo aquilo que uma olimpíada, uma Copa do Mundo exige para deixar como legado para as pessoas. Na parte esportiva,a crise e a falta de investimento e toda a questão da corrupção que envolveu o nosso país recentemente atrapalhou muito a preparação dos atletas. Tem atletas que não tem a condição ideal para treinar .Eu não me iludo no fato do Brasil ficar entre o “Top 10” de medalhas,acho difícil que isso aconteça e nem acho que seja importante porque os caras que chegam lá,chegam na superação, na luta individual.É muito raro você encontrar um atleta que tenha sido apoiado desde o inicio por um patrocinador,que entra na carreira do cara quando já tem resultao. Aí é mole.

RR: Qual a sua dica para aqueles que estão começando nessa área?
EJ: Primeira dica, não desanime nunca! Se um dia o cara chegar e falar pra você: “Fica longe do microfone que você não nasceu para isso”, não acredite.
Lute por aquilo que você sonha! Se o sujeito gosta de produção, de vídeo, site, internet, se ele acha que vai ser excepcional na geração de conteúdo, hoje as plataformas necessitam de gente boa, produzindo conteúdo….
Mas se você achar “ Pô,eu não tenho vozeirão, não tenho uma adicção boa”, isso a gente melhora com o treinamento, a gente cresce, aprende, faz os exercícios. Narrar futebol é um domínio de uma técnica.
Ninguém nasce sabendo e ninguém pode falar que “agora eu aprendi”, nunca! Pois, por exemplo, tem um jogo aqui hoje e estou estudando pra caramba, estou me preparando para conduzir. Você tem que se preparar para tudo que você faz, você não pode abrir o microfone e entrar no ar sem nenhuma preparação.
Acredite no seu sonho, lute por ele, mas o sonho não acontece assim do nada.
Você tem que se preparar para isso acontecer e a pior coisa que a gente pode sentir, é ter vergonha por não ter tentado. Então, tente, lute, mete a cara, faz sem vergonha, pede uma oportunidade. Errou a primeira,tenta a segunda. Ensaia em casa.
Depois eu narrei muito jogo sozinho! Passava o jogo e eu ficava narrando, gravava e me ouvia. Quando eu cheguei na Rádio Globo, fui testemunha de uma coisa que realmente acontece até hoje e que serve de lição para a garotada que entra na Escola de Rádio, o José Carlos Araújo já era um fenômeno da narração, segunda-feira ele chegava aqui na rádio e ligava o K-7 e ouvia a narração do jogo de domingo inteirinho e ficava anotando.Se um cara desse ainda faz uma auto avaliação dessa e fala “eu tenho que crescer nisso” você imagina nós que estamos “capengando”. Então, aprendendo sempre e até o final!

Entrevista realizada por Adriano Dias em dezembro/2015