Eduardo Andrews

Eduardo Andrews

Um dos nomes mais fundamentais do Rádio carioca. Numa entrevista exclusiva concedida nos estúdios da Escola de Rádio para Fernando Morgado, Andrews relembrou alguns momentos marcantes nas diversas emissoras por onde passou como locutor e/ou coordenador (Bandeirantes, Manchete, Sistema JB, Transamérica, BEAT98, entre outras). O Rádio em Revista traz um trecho deste depoímento histórico que revela um pouco dos bastidores de um dos maiores fenômenos do FM carioca em todos os tempos: a RPC.

logo RPC

O “Midas” do rádio: esta definição, dada por Ruy Jobim, diretor da Escola de Rádio, resume bem a carreira do radialista Eduardo Andrews. Apesar de formado em Engenharia, Andrews sempre foi um apaixonado pelo rádio e seu sonho, desde criança, era coordenar a programação e a equipe de uma emissora. Depois de trabalhar como locutor e ator de teatro — chegou a contracenar com Regina Duarte —, ele finalmente conseguiu realizar seu desejo em 1977, quando assumiu a Rádio Guanabara (atual Bandeirantes AM do Rio de Janeiro).

Dalí em diante, ele cuidou dos destinos das maiores rádios musicais do Brasil e marcou a história da comunicação levando à liderança (geral ou em seus segmentos) diversas estações: Manchete (a primeira rádio “só sucesso” do FM brasileiro), Transamérica, Cidade, RPC, JB FM, FM O Dia, 98 FM, BEAT98, entre outras.

Apaixonado pelo rádio
A primeira vez que eu vi rádio, eu me lembro, foi com sete anos de idade. Eu queria descobrir o que estava alí dentro, o que fazia aquele barulho, aquelas músicas, e comecei a fantasiar um mundo dentro daquele aparelho. A partir disso fui evoluindo meu conhecimento de rádio, indo nas rádios para ver como se fazia e fiquei um apaixonado. Sempre imaginei fazer o que eu faço hoje em dia, que é dirigir programação de rádio. Já aos onze anos de idade eu tinha uma rádio brega e uma rádio chique, quer dizer: uma rádio como a Globo e a Tupi, que, nessa época, tocavam música também, e a rádio chique seria, por exemplo, a Eldorado e a JB AM. A JB AM, aliás, sempre a foi minha rádio favorita, a minha rádio do coração, que eu ouvia desde os onze anos de idade, e acabei, anos mais tarde, sendo o último coordenador dela.
Eu sempre quis fazer o que eu faço hoje, programação, mas não existia faculdade de rádio, só jornalismo, e não tinha uma maneira de chegar lá. Como eu brincava em casa de fazer rádio, eu gravava e imitava um locutor, porque eu queria o efeito do rádio. Só que quando eu comecei a ouvir as gravações, vi que não estava ruim e que era melhor até que alguns locutores que estavam no ar [risos]. Então pensei: “por que eu não uso a locução como uma maneira de entrar no rádio?” Foi o que eu fiz. Com 17 anos, passei num teste na Rádio Carioca e, no dia que eu ia entrar, saiu uma lei proibindo menor de idade de trabalhar em rádio. Aí eu esperei e, quando fiz 18 anos, no dia do meu aniversário, fui de novo e acabei entrando na própria Rádio Carioca, que foi a primeira rádio que eu trabalhei.

O começo da carreira: o rádio, o teatro e a engenharia
Entrei no teatro aos 23 anos, quando me formei em engenharia. Na verdade eu me formei, comecei a trabalhar em engenharia e acabei trocando a engenharia pelo teatro, e não pelo rádio. O teatro foi uma experiência muito importante na minha vida, mas como o teatro tem muita dificuldade já que, a cada trabalho, você fica desempregado, eu também usava o rádio muito como uma maneira de me manter empregado, revezava entre o teatro e o rádio, mas, nessa fase sempre como locutor. Eu pensava assim: “se um dia eu conseguir ser coordenador de uma rádio, dirigir a programação de uma rádio, eu esqueço o teatro e me dedico ao rádio”. Foi o que aconteceu.
Nessa época, eu realizei o sonho de ser locutor da Rádio Jornal do Brasil, em 1973. Já aprendia muito como ouvinte, mas, lá dentro, aprendi muito mais. A JB tinha acabado de se mudar para aquele prédio da Avenida Brasil, que marcou tanto a história daquela empresa, e foi maravilhoso, uma convivência com profissionais de alto nível. Eliakim Araújo era meu chefe, tinha uma produção de jornalismo exemplar. Não durei muito tempo como locutor lá, mas acabei trabalhando mais cinco vezes na empresa, sendo quatro como coordenador e uma como gerente.
Mas voltando ao teatro, eu começei fazendo “Missa Leiga”: uma peça com elenco grande, um texto excepcional, e que aproveitava um pouco daquela proibição de se falar na época da ditadura, da censura. Usava-se uma missa com forma de falar alguma coisa, passar algum recado. Foi uma das primeiras peças a conseguir alguma abertura naquela época da ditadura militar, em 1973. Aliás, nem era tanto teatro, tinha mais depoimento e, na verdade, era um ato político. Depois tive outras experiências no teatro no Paraná, aí sim fazendo peças mais tradicionais, como Nelson Rodrigues. Essa fase durou quatro anos. Terminei a carreira em São Paulo fazendo uma peça com a Regina Duarte, em que ela era também a produtora e fazia o papel da minha esposa.

Cláudio Petraglia
O Cláudio Petraglia era um dos produtores da “Missa Leiga” e foi através dele que eu consegui voltar para o rádio como coordenador. Ele tinha várias atividades, como tem até hoje. Na época, ele era, ao mesmo tempo, diretor da Rede Bandeirantes, proprietário de dois teatros em São Paulo e diretor de outros dois, empresário da Elis Regina e do Tom Jobim e, além disso, dirigia esse nosso espetáculo de teatro. Foi para ele que eu comecei a apresentar projetos para a Rádio Guanabara, que era da Bandeirantes.
Uma vez, eu tive a oportunidade de conhecer a sala dele na Rede Bandeirantes. Naquela noite, ia ter a estreia da Gal Costa no Teatro Bandeirantes e eu o vi resolvendo vários problemas ao mesmo tempo: tratava da posição dos instrumentos musicais de uma banda que ia tocar, acertava o microfone para a Gal, enfim, fiquei encantado com aquilo e disse: “se um dia eu conseguir fazer um décimo do que ele faz, eu vou ficar muito feliz!”.
Acabei conseguindo na própria Rede Bandeirantes essa entrada minha como coordenador de rádio, depois de apresentar durante quatro anos um projeto para a Rádio Guanabara, que acabou sendo aprovado justamente quando eu estava terminando a peça da Regina Duarte. Aí resolvi voltar para o rádio mesmo, com vontade, e desisti do teatro.

A primeira coordenação: Rádio Guanabara (atual Rádio Bandeirantes Rio)
Em 1977, o Cláudio Petraglia me convidou para coordenar a Rádio Guanabara. Era uma rádio AM com baixa potência. Lá, a gente fez uma programação alternativa musical tocando rock, MPB, reggae… MPB, na época, era alternativo. Ninguém tocava Zé Ramalho, Fagner… Esses artistas todos foram lançados nessa época e acabou virando sucesso também através da Rádio Guanabara.
Foi muito legal também porque coincidiu com o início da Rádio Cidade. O lançamento dela foi um estouro em termos comerciais, um grande acontecimento mesmo, era a rádio musical passando para o FM. A Rádio Cidade representava o mainstream e a gente, na Guanabara, representava o alternativo, o rock, a entrada do novo, o artista novo brasileiro, o reggae…

O surgimento da Rádio Cidade FM
A Rádio Cidade veio num esquema que o Carlos Townsend trouxe dos Estados Unidos e que já fazia muito sucesso por lá. Aqui, o rádio FM aqui era praticamente só de músicas orquestradas, de fundo de elevador, e existia a Rádio Nacional FM, que era o primeiro lugar em audiência no FM, só tocando o MPB bem característico de Caetano, Gil, Gonzaguinha, Djavan… O rádio musical de sucesso mesmo era no AM com a Mundial e a Tamoio. Eu tinha trabalhado nas duas como locutor, até conhecia bem aquele esquema, mas era um esquema muito rígido de locução, com uma formatação muito quadradinha. A Rádio Cidade veio descontraída, com uma locução bem mais à vontade, brincando, mas ainda impostada, com voz grave. Isso foi uma grande inovação para a época, apesar de ainda não ser uma locução como é a de hoje em dia, mas já era bem diferente da Tamoio, da Mundial: “Tops Tamoio, mais sucesso!”, “860 mais música”, “Mundial, som musical”.
Logo em uma semana, todo mundo ouvia a Rádio Cidade e, com certeza, no primeiro mês, ela já era primeiro lugar, com um impacto rápido em termos de faturamento. Foi um grande acontecimento e a liderança dela durou dez anos. Quando eu entrei nela, ela já não era mais líder. Eu entrei pela Rádio Cidade de São Paulo, que foi a primeira FM que eu trabalhei. Depois da Guanabara, eu tive uma experiência, em 1979, na Roquette-Pinto, também com música alternativa, mas aí só como MPB, sem rock.

O nascimento da Manchete AM e FM
Quando eu saí da Roquette-Pinto, me indicaram para uma rádio popular pela primeira vez: foi a Rádio Federal de Niterói, que virou Manchete, sendo que ela já era do Grupo Bloch. Eu tinha um grande companheiro de trabalho, o Luiz Paladino, que era produtor, conhecia muito de MPB e música brega, e acabou me ensinando muito. Fizemos uma parceria brilhante através da Federal, e depois na Manchete, já com uma linha extremamente popular, romântica.
A gente desenvolveu, em 1980, um projeto na Rádio Manchete AM que misturava o rádio falado feito na Globo e Tupi com o musical feito na Tamoio e na Mundial, ou seja: uma programação musical popular que ninguém tocava na época, muito por influência das gravadoras, que estavam investindo mais na MPB e não muito no brega. Tínhamos também pílulas de horóscopo, fofoca, no meio da programação musical. Essa foi a primeira rádio que adotou esse tipo de coisa que, hoje em dia, é muito usado em rádios FM como a Nativa, a FM O Dia e a BEAT98. Essa rádio cresceu muito em audiência, chegou a passar a Mundial, a líder na época entre as rádios musicais, que acabou mudando também toda a sua programação.
Além da Manchete AM, tiveram também cinco emissoras de FM: Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Recife e Salvador. Eu participei do início da Rede Manchete de Rádio e fui o primeiro coordenador da Manchete FM de São Paulo, mas não cheguei a inaugurá-la. A gente fez o projeto de fazer uma rádio que tocava sucesso em FM, coisa que não existia naquela época.
No primeiro dia que a rádio estava no ar, ainda na fase experimental, o Luiz Paladino e eu, sendo ele o programador e eu o coordenador, saímos para almoçar e, em todos os restaurantes e bares que a gente parava na porta, estavam ouvindo a nossa rádio. Era o primeiro dia de transmissão e não acreditávamos: “caramba, a gente programou essa música! Será que é a nossa rádio?” A gente esperava entrar a vinheta e vibrávamos: “ah, é a Manchete!”. Foi uma das coisas mais impressionantes da minha carreira. Um resultado imediato! Era a carência que as pessoas tinham de querer ouvir aquelas músicas de sucesso no FM, e ainda mais sem comercial!
Eu acabei não ficando na rádio. O Paladino ficou como programador, depois o Cesar Foffá entrou como coordenador e um dos locutores principais, e a rádio foi imediatamente para o primeiro lugar em São Paulo, passando a Jovem Pan. Depois, entrou a Rádio Cidade em São Paulo, o pessoal da Manchete se apavorou e mudou a programação para fazer o que a Cidade já fazia no Rio. Acabou que a Manchete perdeu toda a audiência que tinha e a Cidade atingiu o primeiro lugar em São Paulo. Só depois a Jovem Pan tirou essa liderança da Rádio Cidade.
A Manchete FM de São Paulo foi um marco, mesmo que as pessoas não saibam, ela foi a primeira que passou esse tipo de programação de sucesso. Depois, a própria Manchete do Rio teve uma fase assim, antes mesmo da 98, mas quando a Manchete estava quase empatando com a Cidade carioca, eles acabaram desistindo também no Rio e entregaram totalmente essa audiência para a 98, que ficou em primeiro lugar durante 13 anos sendo “só sucesso”.

Rádio Bandeirantes Rio e Rádio Cidade São Paulo
Em 82, eu saí da Manchete e fui de novo coordenador da Guanabara. Lá, eu fiz uma programação popular, concorrendo com a Manchete, e ela chegou ao 8º lugar em AM. Acabou que eles resolveram investir mais na Rádio Guanabara, que virou Rádio Bandeirantes. Contrataram Haroldo de Andrade, Paulo Lopes… Cheguei a ficar um tempo com eles. A rádio foi para o 5º lugar, mas acabou aquele meu projeto.
Virei locutor na Rádio América, que era uma rádio popular musical no Rio. Da América, que era uma rádio AM pequena, fui convidado, em 83, para ser coordenador da Rádio Cidade São Paulo, através do Cleber Pereira, que era gerente do sistema de FM da JB na época. Foi ele que deu esse grande empurrão na minha vida. A Rádio Cidade São Paulo era um ‘Boeing’: funcionava na Av. Paulista, tinha todos os recursos, disputava o 1º lugar de audiência… Foi um trabalho brilhante, com muito aprendizado.
Da Rádio Cidade, eu vim, em 84, para a Jovem Rio: uma rádio nova do Sistema JB que apostava no musical popular. O coordenador na época era o Carlos Townsend. A rádio se perdeu um pouco, ficou dividida entre as novidades da época, o rock nacional, o popular, e acabou que não atingiu um resultado muito bom.

Transamérica: irreverência, liberdade e criação coletiva
Nessa mesma época da Jovem Rio, a Transamérica, que era uma rede de seis rádios no Brasil e funcionava toda gravada, resolveu apostar no rádio ao vivo a partir do Rio. O coordenador que ia assumir esse projeto, o Lélio Márcio, que era da Manchete, montou toda a equipe mas, na semana que ele ia entrar para trabalhar na Transamérica, a Manchete resolveu investir mais nele e ele desistiu de trocar a Manchete pela Transamérica. Eles ficaram perdidos, me encontraram e me chamaram para ser o coordenador da Transamérica no Rio em 85.
Realmente foi um projeto maravilhoso, que marcou muito, e tinha uma equipe maravilhosa: Ruy Jobim, Carlos Alberto, Adriana Riemer, Sônia Freitas, Fernandinho, Claudinho Carneiro, Marcelo Mansur, Jairo Roberto… Foi uma rádio de criação coletiva. Era uma rede importante, pertencente ao Banco Real, mas que não tinha muito investimento. Ela não tinha estúdios bons, sem acústica nenhuma, e tinha uma sala de produção que parecia uma sala de aula. A rádio era feita alí, todo mundo tinha ideias ao mesmo tempo.
Foi uma rádio que inovou o FM em termos de criatividade. A gente apostou no segmento jovem mais qualificado que tinha sido abandonado pela Rádio Cidade. Era uma época de início de abertura política e iam surgindo novas ideias e novas modas: o “Planeta Diário”, “A Casseta”, e o rock nacional dispontava, as danceterias faziam grande sucesso com esses grupos do rock nacional, como Ultrage à Rigor, Legião Urbana, Paralamas… O rádio ainda não tinha absorvido aquilo. A Rádio Fluminense no Rio era a única que tocava, mas tocava só uma vez por semana cada música, naquele jeito dela, e não conseguia fazer o sucesso.
A Transamérica apostou naquilo tudo, no rock nacional e no rock internacional, mas no pop rock, não numa coisa radical como a Fluminense. A rádio foi um grande estouro, logo passou a Cidade e ficou numa beleza de 2º lugar, com uma audiência qualificada e uma repercussão maravilhosa.
Com o sucesso no Rio, eles se entusiasmaram e resolveram lançar em São Paulo também, só que lá não assumiram completamente esse nosso estilo no começo. Eles misturaram um pouco com o popular — Roupa Nova, Fábio Jr., Sandra de Sá — e acabou que essa fórmula deu certo e lá eles conseguiram o primeiro lugar. O coordenador de São Paulo era o Ricardo Henrique, que hoje dirige a Tupi e a Nativa [ambas do Rio de Janeiro], e tinha o José Augusto Biasi como gerente da rede toda.
A maioria das praças seguiram mais a programação de São Paulo, misturando o popular com a irreverência do Rio, sempre com o locutor brincalhão, sem impostar. Na Transamérica, ao contrário da Cidade, o locutor falava normalmente, como se ele tivesse conversando, brincando com o os amigos dele.

Rádio Cidade Rio de Janeiro
Na época que eu saí da Transamérica, a Cidade tinha perdido o público qualificado que era característico dela, não tinha conseguido um público mais popular e não sabia para qual lado ia. Saí da Transamérica em 86 junto com todo mundo ao mesmo tempo, por problemas políticos: o Biasi, o Ricardo Henrique… Então acabei recebendo um convite da direção da Rádio Cidade para assumir a 89 FM de São Paulo [que também era associada ao Sistema JB], que estava com problemas, era muito radical e não dava audiência. Eles queriam fazer algo parecido com o que foi feito na Transamérica.
Quando eu fui para a 89 não achei que tinha que se fazer exatamente o que se fazia na Transamérica, ainda mais porque eu conhecia o público que a 89 tinha e achei que ia ser radical demais. Procurei um meio-termo, fazendo uma programação pop rock no estilo da 89, um pouco mais radical que a Transamérica, e que também teve um resultado muito legal. A 89 que acabou sendo até 3º lugar em audiência em São Paulo durante um tempo.
Acontece que a Rádio Cidade era prioridade para eles e eu vim, em 87, para a Rádio Cidade do Rio, aproveitando alguns profissionais da Transamérica, como o Carlos Alberto, o Jairo Roberto, a Adriana Riemer… A gente apostou num novo esquema na Rádio Cidade, tentando passar um pouco do espírito descontraído e brincalhão da Transamérica para a Cidade também. Acabamos obtendo sucesso, depois de muita dificuldade, e passamos a Transamérica, ficando em 2º lugar.
RPC
Em 1989, o José Augusto Biasi, que era meu chefe, tinha sido convidado pelo Paulo Cesar Ferreira para ir para a RPC. O Biasi estava meio indeciso, viajou, e, um dia, o Paulo Cesar ligou para ele e eu acabei atendendo:
— Olha, o Biasi está viajando, ele vai resolver…
— Mas eu não quero o Biasi: eu quero você!
— Como assim? Não! Você não pode me querer, você quer o meu chefe! [risos]
Bom, quando o Biasi voltou de viagem, eu contei para ele:
— O PC ligou e disse que me quer!
— Então vamos ver quem vai: você vai ou eu vou?
Então nos reunímos com o Marcão, que era coordenador da 105 e também formava a equipe, para escolher quem de nós três ia para a RPC. Acabou que decidimos que eu ia. Eu tinha acabado de voltar dos Estados Unidos com um projeto na cabeça, inspirado na Pirate Radio de Los Angeles, que tocava uma hora de música direto, com uma programação um pouquinho mais ousada no pop rock, e fui para a RPC fazer essa programação. Foi um sucesso bem legal e a gente acabou passando a Rádio Cidade. A RPC era uma rádio que não tinha muita estrutura administrativa, sem muitos recursos…
Gerente geral do Sistema JB de Rádio: o nascimento da JB FM e o acordo entre “O Dia” e o “Jornal do Brasil”
O Paulo Cesar Ferreira vendeu a rádio para “O Dia” e o então diretor da FM O Dia acabou virando vice-presidente do “Jornal do Brasil”. Foi ele acabou me levando de volta para o JB em 93. Saí da RPC e virei gerente geral das rádios FM da JB e acumulei a coordenação da Rádio Cidade pela segunda vez.
Na Rádio Cidade, a gente apostou numa programação de pop rock, criamos a “Cidade do Rock”, e ela acabou conseguindo de novo recuperar a posição em relação à RPC. Nessa época, a gente lançou a JB FM, que ainda mantinha uma programação orquestrada durante o dia e música clássica à noite. Resolvemos investir numa programação adulta. A Alvorada, na época, tinha uma programação assim no Rio e dominava completamente esse público com a MPB, um internacional lento, e a gente resolveu fazer isso na JB, adicionando o jornalismo, que é a marca do JB.
Apostava-se muito no novo. Até para trabalhar o marketing da rádio, a JB FM tinha um projeto chamado “Novo Canto” que lançou muita gente nova, pois era sempre um artista consagrado que “apadrinhava” um nome novo. Entre os lançamentos, estavam Adriana Calcanhoto, Chico César, Zeca Baleiro… Foi uma época muito rica da MPB e a JB embarcou nisso e ficou com a sua imagem muito associada à musica brasileira, dominando o público adulto, sendo líder até hoje, mas agora com um pouco mais de sucesso e não tão lançadora de MPB.
A grande novidade da época foi que a JB se associou, em 97, com o Grupo O Dia para assumir as rádios deles. A FM O Dia estava, na época, em 90,3, que hoje é da MPB FM, e a RPC em 100,5. Ambas faziam programações parecidas e estavam mal de audiência. Foi aí que fizemos o projeto para a FM O Dia.

O nascimento da FM O Dia
A antiga frequencia da FM O Dia [90,3] seria ocupada pela Opus 90, era o programa da noite da JB FM que virou uma rádio toda, e a programação da JB FM ganhou outro estilo. A FM O Dia passaria para o 100,5 e fizemos um esquema musical popular jovem para ela, apostando no que era sucesso na época e que nenhuma rádio apostava na íntegra. A 98 e a Manchete tinham programas de axé e do pagode que eram grandes sucessos nessas duas rádios: em 1º, a 98 disparado, e em 2º, a Manchete com uma audiência fenomenal. Isso era aos sábados e domingos, de 10h às 14h. Pegamos esses estilos, o pagode e o axé, e fizemos uma rádio inteira na FM O Dia, com um resultado brilhante e rápido. A gente conquistou o primeiro lugar de audiência em quatro meses, acabando com os 13 anos de liderança da 98 FM.
A primeira passagem pelo Sistema Globo de Rádio
Por causa da Rádio Cidade, acabei pedindo demissão do Sistema JB. Saí da FM O Dia no final de 98 e acabei indo para o Sistema Globo de Rádio, que tinha perdido o primeiro lugar para a FM O Dia. Acabei indo como gerente corporativo de programação de todas as rádios musicais do grupo, que eram a Globo FM, a 98 FM e a BH FM. O João Carlos assumiu a gerência da FM O Dia e manteve a liderança dela durante alguns anos.
Na 98, a gente apostou num esquema popular ainda no padrão que ela seguia, um público adulto popular, mas ligando muito às novelas e aos artistas da Rede Globo, aproveitando esse envolvimento da empresa. Acabamos tendo um resultado muito legal lá.
Acontece que, no ano 2000, o João Carlos, que era gerente da FM O Dia, pegou quase toda a equipe da FM O Dia e foi para a Mania, que era uma nova rádio que surgia no lugar da Alvorada. Isso acabou dividindo a audiência da FM O Dia. Como a 98 estava em ascenção, acabamos recuperando o primeiro lugar de audiência da 98, com a FM O Dia ficou em segundo e a Mania em quinto. Com isso, ela não durou muito e, com o final da Mania, o primeiro lugar da FM O Dia foi recuperado e a 98 ficou em segundo lugar.

Novos desafios: Rádio Supervia, Estação 104 e Angola
Depois que saí da 98 FM, em 2002, assumi um projeto na SuperVia, empresa de trens do Rio de Janeiro, para montar a Rádio SuperVia, que está funcionando até hoje, com a gerencia do Cleber Pereira. No período que essa rádio estava sendo inaugurada, eu recebi um convite para ir à Fortaleza e assumir três rádios lá: a Jovem Pan, a Rádio Cidade e a Atlântico Sul. Acabou que não me adaptei muito ao esquema de Fortaleza, fiquei só dois meses e aceitei um convite que eu já tinha recebido aqui no Estado do Rio, na Região dos Lagos, para uma nova rádio: a Estação 104. Montamos ela desde o início. Criamos uma programação mesclando pop, rock e hip hop, tentando agradar um público jovem/adulto qualificado. Ela ficou num meio-termo, até pela falta de opção que tem no mercado da Região dos Lagos, e acabou sendo um grande sucesso, muito mais do que o esperado. Optamos pelo o que era sucesso na época, o hip hop, que foi isso que acabou fazendo a rádio se tornar um sucesso popular. Eu acabei entendendo isso quando saí da Estação 104 para voltar ao Sistema Globo de Rádio e assumir a BEAT98.
Nesse período que eu estava na Região dos Lagos, tive uma indicação do Ruy Jobim [diretor da Escola de Rádio] para um projeto em Angola que me deixou sequelas até hoje de saúde [risos]. A ideia era fazer uma rádio para um grupo ligado ao poder de Angola. Angola me assustou muito com a miséria do povo e a maneira ele é tratado. Aquilo me abalou muito psicológicamente. Minha temporada era de dez dias e eu passei cinco desses dez dias na cama porque entrei num forte processo de enxaqueca. Com isso, acabou que me diagnosticaram malária. Eu fui no hospital, o exame deu negativo, mas o médico insistiu que, mesmo assim, eu estava com malária. Aí eu comecei a me tratar com remédios fortíssimos que acabaram comigo. Tive uma desidratação profunda, não conseguia mais me alimentar, e eu embarquei para o Brasil naquela situação. Cheguei, fui direto para o hospital, fiquei internado dois dias, e tudo o que eu precisava era de soro! Quer dizer, o hospital lá em Angola diagnosticou malária e não me deram um sorozinho, que teria resolvido o meu problema! [risos] Acabou que fizemos o projeto, que era o de montar uma “rádio da alegria”, baseado um pouco na FM O Dia, porque o povo de lá é alegre, mas está oprimido por anos de guerra civil, por uma série de dificuldades… Puxar a alegria seria uma coisa a favor daquele povo, pois a gente sabe que viver com alegria é muito melhor. Eles [os proprietários da emissora] queriam muita coisa de jornalismo, eu resistia, queria mais musical, mas acabei fazendo o projeto que nunca foi seguido.

O fenômeno BEAT98
Na BEAT98, aproveitando o sucesso da Estação 104, o hip hop, misturado com o pagode e o funk, acabamos criando uma alternativa para a antiga 98, que tentava concorrer com a FM O Dia fazendo muito parecido com ela. Essa opção de tentar uma coisa diferente, através de uma nova comunicação e de um novo repertório musical, acabou dando muito pé e a rádio tem tido um bom resultado. Ela vem se aproximando da FM O Dia há algum tempo, só não se sabe se para atingir a liderança. Ela tem uma imagem muito boa, um resultado comercial bem interessante, porque ficou mais jovem e mais moderna do que a FM O Dia.

Entrevista realizada em maio de 2010 por Fernando Morgado
Publicada na edição n 1 da Rádio em Revista.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *