Desde 1982…

Ruy Jobim e Rita Lee em 1985
Ruy Jobim e Rita Lee em 1985

Certa vez fiz uma comparação de como era a tecnologia na época em que tinha a idade de meu filho mais velho. Fazendo as contas voltei para 1982. O que havia em 82, ou melhor, o que não havia?

Depois de colocar o microondas na lista, computador, impressoras, telas de LCD, mp3, chegamos ao celular com tudo que esse gadget oferece. Foi então que meu filho ficou perplexo. Como era a vida sem celular?

Quero fazer uma comparação de como era um estúdio de rádio e nossa rotina em 1982, quando ainda era ouvinte mala. Embora só viesse a trabalhar em rádio um ano depois, já frequentava estúdios de rádio, mas precisamente a Rádio Cidade que trazia o melhor da tecnologia da época.
A programação musical era feita à maquina de escrever com cópias em carbono. Quando a fita estava gasta, usávamos a folha cópia quase sempre suja de carbono. Como ainda não tinham inventado o Ctrl_Z, o redator usava a letra X com muito ódio para cobrir o erro. Era ódio mesmo. Quem lembra da cara do redator batendo na mesma tecla várias vezes?

Era muito comum o erro de digitação nas folhas de programação, principalmente aos fins de semana devido a necessidade em deixar as programações de sábado, domingo e parte de segunda prontas.
Tínhamos que datilografar todos os nomes dos intérpretes e nomes das músicas. Ao fim de uma sexta-feira era comum escrever que Phill Collins iria cantar “Que País é Esse” da Legião Urbana. Stress puro.

Na segunda-feira as reclamações chegavam ao setor de programação geralmente com garranchos em letra vermelha destacando os erros cometidos pelos programadores exaustos.
Pela manhã era obrigação colocar nas estantes os discos de vinil tocados no dia anterior que seriam retirados de acordo com a programação musical que já estava sendo produzida. Para esse trabalho geralmente tinha um estagiário que era chamado de discotecário. Era trabalhoso. Explicando: Ao acabar a digitação da programação nas várias folhas A4, o discotecário separava os discos que iriam tocar. Ao finalizar o trabalho do operador ou locutor, o discotecário guardava tudo de novo. O maior sonho desse sujeito era virar programador e isso aconteceu várias vezes. Vi discotecária, depois de muito trabalhar com programação, virar diretora de rádio.

Os discos que já ocupavam muito espaço no estúdio acabaram virando um problema de armazenamento na sala de programação. As rádios recebiam muitos discos das gravadoras e mesmo não arquivando os que a emissora não iriam tocar, era grande a quantidade. Quando chegou o CD a coisa melhorou e hoje não temos mais as estantes de discos e os discotecários carregando os vinis de lá pra cá. Conclusão da história: acabou o cargo de discotecário. Agora as musicas estão no HD.

Os locutores precisavam de muita atenção para colocar a faixa correta no ar. O disco vinha identificado da seguinte maneira: disco nacional, número 43, lado B, faixa 3. Qualquer conversa no estúdio poderia acarretar em faixa errada no ar. Houve uma época que as gravadoras prensavam os discos promocionais especiais para divulgação. Eram faixas de trabalho de todo o casting da gravadora. A faixa 1 poderia ser rock, a faixa 2 um sertanejo e assim por diante. Para a gravadora era bom. Aliviava o peso na mala dos divulgadores e era mais econômico. Para os operadores e locutores era um inferno! Uma faixa errada faria um estrago na programação.

Como a agulha faz contato com as ranhuras do vinil para se processar o áudio ali gravado era comum o desgaste tanto do vinil quanto da guerreira agulha. Trocávamos o disco após muitas execuções ou até mesmo as agulhas. Quando alguém entrava no estúdio era alertado sobre os cuidados para não fazer o disco ‘pular’. Era comum que a turma da faxina esbarrasse no toca discos com vassouras ou aspiradores. Com o tempo algumas emissoras proibiram faxinas em seus estúdios. Vassoura nem pensar, pois levantavam poeira que eram agarradas pelas agulhas quando depositadas no vinil. Eram tempos difíceis …

O cuidado para não repetir música era tanto que em 1982 se usava uma caixinha com fichas para anotar a hora e dia, assim que a música fosse programada a ficha era colocada para o final da caixinha. Tecnologia de ponta para a época!

Imagine se alguém deixasse a caixa cair no chão ou espalhasse as fichas? Dava morte. Com o manuseio as fichas ficavam sujas e pelo tom de cinza sabíamos as músicas mais executadas na rádio. Hoje tons de cinza quer dizer outra coisa.

Cartucho
Cartucho

Quando não eram executadas diretamente do vinil as músicas eram gravadas em cartuchos (usados para tudo); vinhetas, comerciais, chamadas e o que mais precisasse. Esses cartuchos eram cheios com fitas magnéticas, as mesmas que eram colocadas em gravadores de rolo. A vantagem era a facilidade de operação, pois cada cartucho havia somente uma coisa gravada. No estúdio de transmissão ficavam as cartucheiras de reprodução que tinham as cabeças de áudio limpas com álcool quando o som já começava a sair abafado. Tinha que ser álcool isopropílico para não enferrujar as cabeças dos gravadores.

Essas cartucheiras esquentavam muito e se o ar condicionado não fosse bom as fitas magnéticas sentiam a temperatura quente do rolo de borracha da cartucheira que servia para pressionar a fita a seguir seu caminho pela cabeça de áudio. Se a fita deslizasse nesse rolinho a música desafinava. Para evitar todo esse processo os técnicos colocavam o ar condicionado o mais frio possível, então era obrigatório deixar um agasalho por perto. Em caso de falta do ar condicionado o estúdio ficava um forno porque, por conta do microfone, não podíamos deixar a porta aberta.

Você pode reparar que na era analógica o contato era fundamental para geração de áudio. A agulha encostava no vinil e a fita magnética na cabeça de áudio do gravador ou reprodutor. Assim ouvíamos alem da música, os estalos e chiados que eram companheiros inseparáveis de nossos ouvidos. Tanto nas cartucheiras como nos cassetes que foram usados por um tempo. Por isso tanta festa na chegada do CD. Depois do som digital podíamos ouvir detalhes no arranjo da música que no vinil não tínhamos ouvido.
Agora vamos para o design dos cartazes. Os avisos nos estúdios eram escritos por quem tinha a letra menos feia e feitos com caneta pilot ponta grossa. Ainda não havia Arial, Tahoma e afins. Quando a coisa era mais profissional usávamos uma espécie de decalque, o Letraset, que até hoje encontramos em papelarias. Além disso, tínhamos também uma maquininha rotuladora que gravava nomes em uma fita com diversas cores. Era usada para marcar canais da mesa de áudio e números de cartucho.

Máquina de Escrever

Documentos eram datilografados e assinados por todos. Não havia e-mail, lembra?
Quando se aproximava a hora do break comercial o locutor (ou operador) ficava tenso. Uma pilha de cartuchos a espera da execução. Era um cartucho atrás do outro em movimentos rápidos que davam play na cartucheira, tiravam o cartucho, colocavam o outro e muitas vezes, sem querer ia ao ar um comercial repetido. Pronto! Não havia um controle cem por cento seguro sobre o que era irradiado e isso facilitou muito a prática de ilícitos, como o famoso jabá, abrindo espaço para o rádio ter sido colocado de lado pelas agências de publicidade. Como comprovar que a toda a campanha publicitária tinha ido ao ar? Quantos spots não foram irradiados? Para controlar era preciso alguém dedicado da agência vinte e quatro horas e mesmo assim era possível um erro. Nas agências de publicidade diziam que o rádio não era confiável. Muitas emissoras tiveram esse comportamento. Até hoje o rádio paga o preço de ter sido tão irresponsável. Felizmente isso mudou.

Outro detalhe que hoje faz diferença: O locutor/operador tinha que conhecer as músicas que tocava. Não havia nada que mostrasse que o final da canção estava chegando e os “buracos” eram constantes. Sem contar naquelas músicas que acabam e depois dão um acorde derradeiro. Atrapalhavam todo o esquema na beleza da operação. Depois que chegou o “cue clock” o trabalho ficou mais fácil. Esse equipamento era bem parecido com um relógio digital e disparava cada vez que a música começava a tocar na cartucheira. Como o tempo total de duração já estava escrito na etiqueta do cartucho, era só comparar e ficar atento. Em operação de rádio temos que atentar para o que será irradiado após a execução atual, ou seja, o que está tocando já foi agora é pensar no que vem depois e depois e assim por diante. Se não pensar assim o operador corre o risco de deixar buracos no ar. Devemos ter em mente: o mais importante na programação de uma rádio é o que virá e não o que está sendo tocado.

Como sabíamos o que a emissora concorrente tocava e quais os comerciais que estavam no ar por lá e por que não estavam aqui? Criou-se o departamento Rádio Escuta com estagiários e rádios ligados, caneta e papel anotando tudo que acontecia na concorrência. Músicas, promoções, jornalismo, enfim. Cada um fazia a escuta de uma rádio e era normal esquecer alguma coisa na correria que a rotina impunha. O relatório ao final do dia era entregue ao coordenador para análise e decisões. Geralmente este trabalho ficava por conta de três estagiários e sendo assim, três emissoras. Temos hoje uma empresa especializada e competente na aferição de tudo irradiado.

Já vimos que no departamento comercial ninguém poderia afirmar a clientes que os comerciais foram todos irradiados. Na promoção quem poderia saber se o ganhador já foi sorteado semana passada ou até mesmo se é amigo de alguém na rádio? Pode ter havido má fé no resultado.
Tão importante quanto saber o que foi tocado é saber se alguma música que não estava na programação da emissora foi executada.

Por estas questões acima afirmo que o rádio perdeu credibilidade. Foi preciso a chegada da tecnologia e internet para que esse quadro se revertesse. Hoje temos um rádio bem alinhado e aferido. Sabemos a real programação musical que foi executada e tudo que foi ao ar.
Fazer uma cobertura jornalística era uma Ginástica. Entrar em hospital para ver as condições de atendimento ao público era impossível. Hoje com o celular gravamos em HD e enviamos o áudio pelo whatsApp com qualidade sonora impecável.

Mandar um áudio para outro estado era operação de guerra. Hoje temos o email. Se for grande o arquivo podemos enviar por sites que fazem bem o serviço.
Softwares de automação dizem até a hora certa e transmitem para todo o País em rede sem a presença de um ser humano. Entra a publicidade local, sai local, entra rede e sai rede e o ouvinte nem percebe. Locutores gravam e enviam áudios por microfones ligados a internet.

Com os antigos recursos o trabalho era mais cansativo, mas digo com toda certeza de quem viveu esse momento. Havia mais espaço para a criatividade. As chamadas “nuvens” na internet fazer o trabalho de colocar uma rádio no ar sem ter estúdio ou PC. Comprar um espaço, subir com umas musicas em Mp3, colocar umas vinhetas e dar o play.

Acredito que a criatividade hoje esteja na segmentação. Quanto mais segmentada, mais audiência, mesmo que esta venha espalhada com tantas opções de entretenimento. No meu tempo a concorrência era uma outra emissora, mas hoje todos brigam por um lugar ao sol. Ainda bem que o sol esta sempre brilhando mesmo em dias nublados.

Por Ruy Jobim
Maio de 2015

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