História de São Sebastião e o Rio de Janeiro

SABE O PORQUÊ DO NOME SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO? O TRECHO A SEGUIR DO CAPÍTULO “AS PROCISSÕES” DAS MEMÓRIAS DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, DE VIVALDO COARACY, EXPLICA

20 de janeiro é o dia que a igreja consagrada a São Sebastião. E São Sebastião é o padroeiro da cidade que foi posta pelo Fundador sob a sua invocação por ser o onomástico do soberano então reinante em Portugal, D. Sebastião, aquele rei-menino que foi morrer em Alcácer-Quibir. Quando Estácio lançou os fundamentos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, que mais tarde havia de receber oficialmente o atributo de “leal”, governava Portugal, como regente, pelo neto ainda na infância, a rainha viúva D. Catarina d’Áustria. Foi ela quem mandou levantar uma cidade às margens da Guanabara. Mas ninguém lhe homenageia a memória por isso. Muitos nem mesmo sabem quem foi.

Cumprindo as ordens que da Rainha recebera, Estácio agarrou-se com unhas e dentes àquela língua de terra onde plantara o marco inicial da cidade a que ia sacrificar a vida. E ali ficou por dois anos, numa tenacidade heroica, até que Mem de Sá viesse da Bahia trazer o auxílio preciso para expulsar e esmagar definitivamente os franceses. Foi a 20 de janeiro de 1567 que se deu a batalha que assegurou o domínio lusitano sobre o Rio de Janeiro. São os combates desse dia, em que Estácio foi ferido de morte, que podem ser legitimamente comemorados nesta data.

Mem de Sá a escolhera para atacar os redutos de franceses e tamoios justamente por ser o dia do padroeiro. Naqueles tempos de fé robusta e ingênua, confiava-se no santo protetor para dar a vitória à sua gente. Não se afirmava já então que o mártir fora visto, sob a forma de um mancebo “muy fero e fermoso”, combatendo em pessoa ao lado das forças de Estácio, na duvidosa batalha das canoas? Aliás, não se pode desconhecer que essa confiança no apoio dos santos dava valor e ânimo capaz de conduzir, como conduziu, à vitória.

São Sebastião foi sempre o padroeiro do Rio de Janeiro e, como tal, alvo de um culto carinhoso por parte dos cariocas. A ele foi consagrada a primeira capela erguida nestas terras: uma tosca igrejinha de taipa, coberta de sapé que Estácio se apressou em mandar levantar no primeiro sítio da cidade, ao sopé do Pão de Açúcar. Era a matriz, incipiente. E nela foi sepultado, de início, o próprio Fundador. Transferida a cidade para o morro do Descanso, que depois se chamou do Castelo, um dos primeiros cuidados de Salvador de Sá foi ali erguer a igreja do padroeiro, a Sé Velha, para onde foram trasladados os restos mortais de Estácio de Sá, hoje repousando na nova igreja de São Sebastião, sob a guarda dos Barbadinhos, na rua Haddock Lobo.

Uma relíquia carioca: imagem recém-restaurada de São Sebastião do séc. XVI trazida por Estácio de Sá e guardada (e ocasionalmente exposta) na Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca

Sempre foi muito devoto do seu patrono o povo do Rio de Janeiro. Nos tempos coloniais e nos da monarquia, a festa de São Sebastião era celebrada com vibrante entusiasmo em que as comemorações oficiais se aliavam às manifestações populares. Salvas das fortalezas e dos navios, parada de tropas em grande gala, cerimônias religiosas com missa solene e sermão adequado, repiques de sinos, foguetório, janelas ajaezadas de colchas de damasco e tapetes do oriente, luminárias em todas as casas, danças populares em plena rua. Os festejos estendiam-se ao mar onde se efetuava um combate simulado, com fogos de artifício, entre dois grupos de embarcações, para rememorar a famosa batalha das canoas em que, segundo a lenda, o Santo em pessoa tomara parte, descendo à terra, vindo combater ao lado de seus devotos, na defesa da sua cidade. Com a vinda para o Rio de Dom João VI, rei beato por excelência, os festejos religiosos e oficiais adquiriram ainda maior pompa e brilho, iniciando-se na noite de 17 de janeiro.

Fonte: Literatura e Rio de janeiro

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