Mercado x Ensino


Quando me interessei pela didática para compor a grade de matérias da Escola de Rádio no Rio de Janeiro, fiz uma pesquisa para saber onde as faculdades erravam. Lá se vão quase 20 anos e garanto que continuam errando.

A dificuldade de compor um programa completo que abranja a real necessidade do mercado de trabalho é grande para as faculdades, assim como é grande a dificuldade de atualização do professor longe do mercado de trabalho que exige vários papéis dentro de uma única função. Por exemplo, o redator não fica à espera de texto para redigir, mas vai para a rua fazer matéria, apurar e até apresentar o noticiário.

Os alunos estão preparados para isso? De quem é essa responsabilidade? Talvez a culpa seja de um mercado que vem se transformando rapidamente e exigindo cada vez mais de seus formandos.
O que fazer?

Segundo o coordenador da Rádio Globo AM no Rio e ex professor de Comunicação Social da PUC, Soares Júnior, “a maior dificuldade é lidar com a improvisação que a vida real exige, diferente das atividades propostas em sala de aula, já ultrapassadas”. Ainda segundo ele, “além da falta de maturidade, o maior desafio de quem dá aula nesta geração é fazer com que os alunos escutem rádio. Em compensação, quando escutam, se apaixonam ”, diz Soares Jr.

Os alunos vindos das faculdades que entram nos cursos profissionalizantes da Escola de Rádio percebem a grande diferença de informação entre a realidade do mercado e a sala de aula.
Todos os professores estão com mais de vinte anos no mercado e, quando trocam informações com alunos, ficam arrepiados com o nível básico das perguntas e com o despreparo desses alunos.

O mercado está em sala de aula também nas palestras que fazemos mensalmente. Dizer que existe uma lacuna é pouco; o que existe é um abismo.

Percebe-se esta realidade em matérias práticas como locução e redação, em que o aluno precisa praticar o que aprende. A prática na faculdade é mínima em algumas matérias. No caso da locução, depende da agenda de estúdios. São muitos alunos para poucos estúdios. O pior é quando o aluno reconhece a frustração depois de quatro anos de estudos, provas e monografia. Ao aluno cabe se interessar pela profissão que deseja abraçar fazendo cursos livres para se atualizar e se aproximar do mercado.

E a culpa por essa defasagem é só das faculdades? O aluno procura saber sobre a futura profissão? Ele se prepara ou apenas assiste às aulas? Os formandos não tomam atitudes para enfrentar o futuro. Muitos jovens acreditam que a especialização é o melhor caminho, então pensam em mestrado e doutorado antes de iniciar a carreira. Tornam-se estudantes profissionais.
O obstáculo para quem entra no mercado de trabalho é que não se trabalha somente em uma especialidade segmentada. Hoje todos fazem tudo.

As faculdades estão voltadas para a formação específica e não preparam os recém-chegados ao mercado para uma carreira que precisa de decisões e gerenciamento próprios, já que basta cobrar em provas e trabalhos, não havendo a cobrança interna do indivíduo e nem incluindo na grade curricular disciplinas voltadas para a orientação do profissional. Vamos decorar a matéria e pronto.

Os formandos devem procurar a independência. Algo como não se deixar levar apenas em assistir às aulas, mas, acima de tudo, procurar cursos livres que possam preparar e assustar menos quem chega a um mercado tão moderno.
Fica cada vez mais claro que o modelo de estudo apresentado hoje esta ultrapassado e falido.

Ruy Jobim

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