Rock in Roll, Ave-Maria e Música Brasileira

Aproveito o ensejo de mais uma edição do Rock in Rio no Rio – não me furto ao jogo de palavras meio jocoso porque, como sabemos, o evento virou marca internacional e já foi realizado, mais de uma vez, na Espanha e em Portugal – para falar de música em sentido lato, como expressão artística universal independente de particularismos e nacionalismos exaltados. E o faço com uma pergunta que, às escâncaras, soa surreal: que há em comum entre o conjunto de rock Scorpions – que participou da primeira edição do festival, no já longínquo ano de 1985 – e o compositor Herivelto Martins? Aparentemente, nada mais incompatível, nada mais antípoda, do que um conjunto de hard rock alemão que canta em inglês e um dos grandes compositores de samba e canções da velha guarda da música brasileira.

A resposta está neste vídeo, disponível no youtube:

Num show na Cidade do México, em 94, Scorpions canta em espanhol “Ave Maria no Morro”, obra-prima da música brasileira composta por Herivelto no início dos anos 40 e originalmente gravada por Dalva de Oliveira em 1942. (Há pouco tempo, a Rede Globo prestou um serviço à memória nacional à minissérie Dalva e Herivelto, sobre a vida –bastante atribulada – destes dois gigantes da música brasileira da Era do Rádio e de todas as “eras”, as que vieram depois e as que ainda estão por vir)

“Ave Maria no Morro” é, ao mesmo tempo, crônica social da tragédia brasileira e homenagem à religiosidade popular. Mas não é uma canção religiosa. É canção popular, com dramaticidade que não escapa aos ouvidos mais ou menos sensíveis – e que à época foi considerada herética pelo Cardeal Dom Sebastião Leme.

A gravação “Ave Maria no Morro” pelo Scorpions, que se ouve ao fundo, está registrada no CD “Live bites”, que reúne gravações ao vivo de turnês pelo mundo realizadas entre 1988 e 1995. Houve quem a considerasse uma bizarrice. Sob certa ótica, a que não enxerga a música como uma linguagem artística universal, não deixa de ser verdade. Removidas as barreiras nacionais que se erguem como juízos de valor, as fronteiras musicais são sempre tênues. Só os austríacos podem ouvir Mozart? Só os alemães podem apreciar Bach e Beethoven? Se levássemos esta lógica (na verdade, a falta dela) realmente a sério, nós brasileiros deveríamos criticar os estrangeiros que admiram a nossa música.

Só há um critério de validação estética da música – e da arte, de maneira geral: a qualidade. Não as fronteiras nacionais; não as ideologias políticas; não a classe social a que pertence o artista. Qualidade não se confunde com gosto pessoal, que é totalmente subjetivo: é perfeitamente possível gostar de um artista cuja obra é de qualidade inferior, e não ter a capacidade de reconhecer isso é uma das tragédias de nosso tempo.

A riqueza da linguagem artística musical permite que uma obra consagrada como “Ave Maria no Morro” seja interpretada por um conjunto de rock, numa ressignificação estética que lhe mantém a emoção despertada pela letra e pela melodia. Ao longo das décadas, muitos artistas, brasileiros e estrangeiros, reinterpretaram-na. Como João Gilberto: comedido, sussurrado, minimalista, num contraponto radical à antropofagia do Scorpions e à voz sofrida de Dalva de Oliveira.

Abaixo, listo algumas interpretações estrangeiras e brasileiras:

Música “Ave-Maria no Morro”

Versão Original, com Dalva de Oliveira

Versão Polonesa

Versão Italiana – Andrea Bocceli

Versão João Gilberto

Por Bruno Filippo – Jornalista, sociólogo
set/2013

2 thoughts on “Rock in Roll, Ave-Maria e Música Brasileira”

  1. Perfeita e inteligente a sua contextualização.E neste caso acredito que o fetiche que a arte promove concorre para a liberdade de expressão.Não existe a terceirização do sentimento.É o sentimento sentido….Muito bacana.

    Abs ao professor do seu aluno Pestana

  2. Concordo plenamente. A música é universal São sete notas de domínio público. Uma das minhas preferidas, por exemplo, é MY WAY, gravada por Chitãozinho e Xororó. Me toca mais do que a gravação do Frank Sinatra. Uma das passagens mais emocionantes da minha vida foi na missa de sétimo dia do companheiro Gilberto Lima, no Outeiro da Glória. Na hora da comunhão, sem que ninguém esperasse, sem qualquer acompanhamento instrumetnal, Agnaldo Timóteo começou a cantar a AVE MARIA NO MORRO. Todo mundo chorou. Emoção total. Mais um a vez você, Bruno, mostrou suas qualidades de jornalista, com uma redaçao cheia de conteudo, enxuta e impecável e de sociólogo. Para quem tem sensibilidade “até” o brega é clássico. Aliás. est[a a[o p exemplo do sucesso internacional do Michel Teló. Brega é igual mulata – muita gente gosta, mas tem vergonha de dizer que gosta.

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