Rádio, Comunicação e Política – Parte II

Do manequim antigo sobrou muito pano nestes trinta anos em que, fazendo as duas balanças, a da Justiça e a dos quilogramas, pender para os dois lados, Roberto Jefferson nunca deixou o proscênio. Trinta quilos mais magro depois de uma cirurgia bariátrica, mantém a mesma capacidade de atrair as luzes dos holofotes, que vem dos tempos em que, advogado com silhueta robusta, ocupava uma das tribunas do programa O povo na TV, que a TVS, hoje SBT, exibiu no início dos anos 80. Delator do maior esquema de corrupção da história da República brasileira, Jefferson não escapou à condenação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em fins de setembro, ainda que sua pena tenha sido reduzida porque ele, ao fazer a denúncia, colaborara com as investigações.

Quinze dias depois de saber-se condenado por lavagem de dinheiro e corrupção passiva, o advogado e ex-deputado soube da morte do diretor de TV Wilton Franco, aos 82 anos, no interior de Santa Catarina. Franco dirigiu-o n’O povo na TV, que alavancava a audiência à mesma proporção que diminuía a distância entre prestação de serviço e sensacionalismo, entre defesa dos mais humildes e demagogia. Wilton Franco, tendo iniciado careira no rádio na década de 40, cumpriu trajetória brilhante na televisão. Sua maior criação talvez tenha sido o humorístico Os Trapalhões, que encantou a tantas gerações de crianças e adultos, incluindo a minha, entre os anos 70 e 80. Mas ao criar, dirigir e apresentar O povo na TV, seus braços também embalaram outros filhos pródigos na tevê brasileira: os programas popularescos exibidos ao cair da tarde.

Trilhando essa tênue distância aberta por Wilton Franco, Roberto Jefferson envergou na televisão a armadura do defensor dos pobres, tornou-se conhecido do público e ascendeu na carreira política. Elegeu-se deputado federal pela primeira vez em 1982; daí a sua cassação, em 2005, foram mais cinco mandatos consecutivos de muitas polêmicas.

Concomitantes, a condenação de Roberto Jefferson e a morte de Wilton Franco em período eleitoral fecham de forma simbólica a cadeia que une problematicamente a comunicação à política. E servem de mote a esta coluna para voltar a tratar deste assunto tão polêmico. Saídos de uma eleição municipal, os brasileiros vimos – e ouvimos – muitos homens de rádio e de televisão candidatarem-se a prefeitos e vereadores. Entre a vitória política e a derrota eleitoral, a certeza de que os meios de comunicação eletrônicos são uma grande alavanca de popularidade e, por consequência, de possibilidade de metamorfoseá-la em votos. (É preciso distinguir vitória política de vitória eleitoral: esta é a conquista do cargo público por meio do voto do eleitor; aquela é a conquista de capital político – o poder de angariar votos entre parcela considerável dos eleitores e de, ao mesmo tempo, influenciar e refletir seu habitus.

Perder uma eleição não significa que o candidato tenha saído da disputa politicamente derrotado: por vezes, sua presença em campanha, aumentando-lhe a exposição, faz minar aos poucos as resistências a ele)
Nesta campanha eleitoral, Campinas tornou-se exemplo mais apropriado tanto para mostrar que derrotas eleitorais podem prenunciar vitória quanto para amplificar, pela voz rouca e potente de um líder político, os problemas da confusão entre microfone e palanque. Uma das maiores cidades do país será administrada a partir de janeiro por Jonas Donizette, um radialista cuja biografia confunde as atividades de comunicador e de político. Começou nos microfones em 1985, em pequena emissora de Limeira; na vida pública, iniciou-se em 1992. Em outubro, na terceira tentativa de eleger-se prefeito, derrotou no segundo turno o petista Marcio Pochmann – derrubando o “poste” de Lula, o Haddad de Campinas que acabou não dando certo. Durante a campanha, Lula disse de Donizette, evocando sua condição de radialista e veladamente confrontando o currículo dele ao do acadêmico Pochmann: “Não há na história deste país radialista que distribui cadeira de roda que tenha dado certo como prefeito de uma cidade.”

Houve quem, da classe dos radialistas, não gostasse dessas palavras do ex-presidente, por nelas haver supostamente uma carga de preconceito. A reação é compreensível: um radialista distribua ele ou não cadeiras de roda – assim como um médico, um economista, um operário, um sociólogo -, pode ser provido ou desprovido de competência para administrar uma cidade. Mas a questão de fundo é outra, bem outra: um profissional de comunicação – que, além da capacidade de exercer a função de mediador entre a sociedade e as instituições, tem a força de formar opinião – deve ao mesmo tempo (atenção para o grifo) exercer ou ter a pretensão de exercer cargos públicos? São compatíveis as duas funções sem que a primeira sirva de alavanca para a segunda, ainda que esta não seja a intenção do comunicador-político?

Deve-se repetir a ressalva feita na primeira coluna: não se trata de uma questão legal, pois não há lei que impeça isso, mas deontológica, porque se refere às normas de conduta da profissão, e ética, por envolver valores morais. Em teoria política, demagogia é um conceito que remonta às práticas políticas da Grécia Antiga nas quais o uso da palavra pelos governantes adulava o povo, manipulando-lhe os sentimentos, fazendo-o aderir acriticamente às suas ideias e apoiar suas práticas. Transportando este conceito para a atualidade, nele os meios de comunicação de massa têm potencial para desempenhar papel preponderante devido à sua capacidade de penetrar no sistema sensorial dos indivíduos. E com isso o conceito se amplia, abarcando uma esfera que não busca a conquista do poder político – mas a conquista e a manutenção da audiência das massas. O apresentador que grita e xinga, especula sobre dramas humanos e posta-se como ardoroso e defensor do povo, além de ferir sensibilidades, busca ser visto ou ouvido. E admitamos: muitas vezes, consegue. Sobre isso, falaremos em outra coluna. Por ora, voltemos à relação do rádio com a política. Se quisermos um debate sério e isento de paixões, não devemos escapar a duas perguntas básicas:

1) Até que ponto a condição de político – ou de aspirante a político – condiciona, mesmo que involuntariamente, as palavras que o radialista profere ao microfone, tornando-as resultado de um cálculo para atender a interesses outros que não o de entreter e informar o ouvinte e de prestar-lhe serviço – o que faria do rádio não apenas um meio de comunicação, mas um meio de ascensão à carreira política?;

2) Pelo lado dos ouvintes, até que ponto eles recebem sua mensagem como extensão da atividade fora dos microfones ou como reflexo do que poderia fazer na vida pública, embaralhando as duas ocupações?
Apenas para deixar claro e evitar mal-entendidos: não duvido da honestidade dos radialistas que ingressam na vida pública, nem os tacho de demagógicos. Trata-se de um problema amplo, que remonta à organização social e política do Brasil e ao papel dos meios de comunicação. Espero que, com as duas colunas sobre o tema, eu tenha contribuído para provocar reflexão nos radialistas e os amantes do rádio – e, sobretudo, nos ouvintes.

por Bruno Filippo

Leia também: Rádio, Comunicação e Política – Parte I
DEZ/2012

3 thoughts on “Rádio, Comunicação e Política – Parte II”

  1. Bruno, é sempre com curiosidade e satisfação de ler um bom texto que acompanho seus escritos. Agora, gostaria de ler a a Parte III com suas opiniões sobre as questões que você colocou no final do texto. Como afirma um comentário ao seu texto, um político (quase) sempre teve outra atividade anterior ao seu mandato. Mas os profissionais de veículos de comunicação de massa, como você chama a atenção, se diferencia de muitos outros pela especificidade de atingir um público extenso no seu dia a dia de trabalho, o que a princípio demarca uma suposta vantagem na arena eleitoral. Me chamou a atenção, nos comentários de analistas das últimas eleições, a quantidade de profissionais da comunicação eleitos. O que você acha disso? Como fazer com

  2. Excelente. Você foi fundo, com muito conhecimento de causa. Há compatibilidade política com qualquer profissão. Memso porque, a não ser nos casos hereditários, antes de ser político a pessoa é outra coisa. Aconteceu comigo, por exemplo, em minha curta carreira de vereador. Na verdade, é difícil você fazer política com boa intenção. Há muitos “interesses” em jogo muitos deles escusos.Um abração.

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