Os 90 anos do Rádio no Brasil e a Rio+20: Deus é brasileiro?

Veiculado nas principais emissoras de país, o spot do 26º. Congresso da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) , que aconteceu entre os dias 19 e 21 de junho em Brasília, é uma homenagem aos 90 anos de rádio no Brasil. Termina com a afirmação de que, neste período, poucos países fizeram um rádio de tão boa qualidade como o Brasil. É verdade; e que a relevância artística, cultural e política de nossa radiofonia não nos torne surdos a seus problemas e a seus desafios num mundo digital. É disto – desta relevância, problemas e desafios – que a coluna abordará, pelo que agradeço a Cristiane Jobim o convite para escrever neste espaço.

Tão histórico para o rádio e para a televisão, que chega às quatro décadas em transmissão em cores, quanto para as discussões sobre o meio ambiente encetadas no Riocentro, este 2012 sobrepôs ambos os eventos. E que a coincidência das datas, a soterrar sob a avalanche de palavras como “sustentabilidade” a importante reunião da Abert, convide à reflexão sobre a capacidade do rádio e da televisão de massificar uma causa sem, no entanto, fazê-la entendida pelo público. Pesquisa do Instituto Akatu e do Instituto Ethos mostrou que 84% dos brasileiros não sabem o que significa sustentabilidade. (Uma pergunta que é, ao mesmo tempo, uma sugestão de pauta às redações: será que, um mês após a Rio+20, essa porcentagem diminuirá?)

Pode parecer nada atemorizante e surpreendente para um país que, diz-se, é sem memória. Afirmações como esta são clichês que se constroem com base na realidade, ou numa realidade observável que permite a generalização.

Tem a radiofonia, em se tratando de concessão pública, a missão de melhorar o nível geral de educação da população, sem que isso se confunda com rádio-escola ou com programas similares aos do “Projeto Minerva”? A resposta é: sim. Voltarei a este assunto, por demais complexo e polêmico, em coluna próxima.

Talvez para compensar nossas carências, a teologia de botequim cunhou a máxima de que “Deus é brasileiro”. Se for mesmo, abençoou-nos não só com o futebol e a propalada hospitalidade, mas com uma capacidade enorme de transformar o rádio e a televisão em arte. E o sinal de sua brasilidade pode estar numa personagem tão fascinante quanto esquecida: o padre Roberto Landell de Moura. Falemos um pouco mais dele.

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Nascido em Porto Alegre em 21 de janeiro de 1861, Landell de Moura foi um padre-cientista. Cursou Física e Química na Universidade Gregoriana, em Roma. Conciliou fé e ciência, o que para muitos é difícil ou impossível. Foi ordenado padre em 28 de outubro de 1886, tendo atuado em paróquias do Rio Grande do Sul e de São Paulo. Também lecionou História Universal no Seminário Episcopal de Porto Alegre. Por melhor sacerdote que tenha sido, por mais que tenha se dedicado como professor, não foi por isso que ele entrou para a história – ainda que pela porta dos fundos.

Pela porta da frente entrou o italiano Guglielmo Marconi. Em 1895, Marconi utilizou a teoria – comprovada pelo físico alemão Heinrich Hertz – de que as ondas eletromagnéticas poderiam propagar-se pelo espaço para transmitir sinais em código Morse. Marconi realizou inúmeras experiências em radiotransmissão, pelas quais recebeu o Prêmio Nobel de Física, em 1909, e foi considerado o pai do rádio.

É nesse momento histórico que se desenrola uma polêmica semelhante àquela que opõe Santos Dumont aos irmãos americanos Wright pela invenção do avião. Há diversos estudos que mostram que o pioneiro cabe, de fato, a Santos Dumont, embora não haja reconhecimento unânime em relação a isso, sobretudo, claro, nos Estados Unidos, onde se ensina às crianças que a primazia coube aos compatriotas.

Entre 1893 e 1894, Landell de Moura, segundo estudiosos, desenvolveu em São Paulo as primeiras transmissões de telegrafia e telefone sem fio de que se tem notícia, do alto da Av. Paulista para o alto de Sant’Anna, numa distância de oito metros. Seria ele, então, o verdadeiro pai do rádio! Deus é brasileiro!

Não se tratou de dois cérebros privilegiados tiveram idéias iguais na mesma época. Há uma sutileza que escapa aos neófitos em eletrônica: a experiência de Landell de Moura foi superior à de Marconi, posto que este propagara mensagens em código Morse, ao passo que aquele propagara vozes humanas. Três das experiências do padre-cientista foram patenteadas nos Estados Unidos, incluindo as que utilizavam a foto-eletrônica, que décadas depois possibilitou o surgimento da televisão.

A polêmica que opõe Landell a Marconi não havia àquela época. Está sendo estimulada por historiadores e pesquisadores brasileiros. A vida de Landell de Moura reflete a triste realidade do Brasil, e explica o pouco valor que lhe é atribuído: foi desacreditado pelo governo, teve os equipamentos destruídos por fanáticos que consideravam seus experimentos demoníacos, teve de mudar-se para os Estados Unidos em busca de apoio. Marconi, ao contrário, viveu numa Europa que dava impulso aos inventos científicos e tecnológicos. Marconi não é um vilão; não há registro de que ele e tenha sabido das experiências de Landell, posto que o Brasil não era país de tradição científica (e lamentavelmente ainda não o é). E – isso é muito importante para a questão – Marconi patenteou sua invenção antes de Landell.

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Como vocês puderam ler em meu histórico, devo à minha avó o gosto pelo rádio. Ela, Maria José, partiu há três semanas, aos 88 anos. Alguns anos antes, deixara comigo o aparelho de rádio com que passáramos tantas tardes que não voltam mais. Já não funciona, mas permanece comigo, como relíquia. Dedico a ela esta coluna, em agradecimento a tudo que me proporcionou.

por Bruno Filippo
JUNHO/2012

COMMENTS

  • Fátima Costa de Lima

    Bruno, seu texto tem o ambiente sensível do descanso de tarde de sábado no campo depois de sair de uma guerra sanguinolenta na sexta-feira: por isso você deve estudar o barroco! Curti seu texto.
    Viva o rádio e os inventores esquecidos! E que a nova história os recupere!

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