O Rádio na Televisão


Com a serventia de mostrar à geração digital que rádio em televisão não é somente a opção que, em alguns aparelhos televisores, permite sintonizar emissoras de frequência modulada, “Fox Sports Rádio”, programa sobre futebol comandado pelos radialistas Alexandre Araújo, Eugênio Leal e Ricardo Martins de segunda a sexta no início da tarde no canal pago “Fox Sport”, dá visibilidade a uma relação entre esses dois meios que remonta à chegada da televisão ao país.
De início antitética e apocalíptica, pois se previa a extinção do rádio, essa relação se tornou importante para a sobrevivência de ambos. Livros de história da comunicação brasileira esmiúçam a contribuição da Era do Rádio às incipientes emissoras de tevê, com os programas de auditório, as radionovelas, os programas de humor, as orquestras e os artistas a servir-lhes de parâmetro. Mas essas páginas, que dão ênfase ao passado, muitas vezes se esquecem de embranquecê-las: o rádio se reinventou e continuou a influenciar a televisão e a formar profissionais que fazem a passagem do som para a imagem. Na forma e no conteúdo, o rádio do passado inspirou o padrão televisivo de comunicar-se com o público. E o rádio moderno antecipou as mudanças na linguagem da tevê, tornando-a mais informal.
Fique-se com o exemplo do jornalismo esportivo: o conceito de futebol-show surge no rádio entre os anos 60 e 70, criado por Waldir Amaral, da Rádio Globo. José Carlos Araújo, o Garotinho, seu discípulo e sucessor no comando do esporte da emissora, foi o grande entusiasta dessa concepção de transmitir futebol em que a narração do jogo e o noticiário dos clubes mesclavam-se à estética do espetáculo, com sinais sonoros, vinhetas e bordões animados, apelidos curiosos e engraçados a nomear repórteres, narradores e comentaristas, locução lépida, participação de ouvintes, depoimento de artistas e famosos, pitadas de humor. Osmar Santos, em São Paulo, fazia inovações semelhantes.
Só mais recentemente, coisa de uma década, década e meia, o jornalismo esportivo de televisão, sobretudo nas emissoras de canal aberto, passou a solidificar esse conceito em que o esporte, como elemento lúdico-passional-catártico da cultura brasileira, merece um tratamento para além da objetividade jornalística. Perdeu o ar solene com o qual o locutor, sentado à bancada, lia notícias esportivas como se fossem de economia e de política. Os apresentadores hoje se movimentam no estúdio, falam com dicção coloquial, como que a conversar com os telespectadores, e permitem-se piadas, brincadeiras e improvisações – características também visíveis nas reportagens. E, nas transmissões, inseriram-se participações ao vivo de artistas e celebridades no intervalo e depois das partidas, além de edição, com grande efeito visual, de imagens de jogadas, de jogadores e de técnicos.
Uma das mudanças mais visíveis foi a substituição de jornalistas esportivos veteranos por ex-atletas na função de comentaristas, de modo que estes, por terem sido desportistas conhecidos, consigam prender a atenção do público, tornando-se chamarizes de audiência. Mas agora começa outro movimento: o de ex-atletas que se tornam apresentadores.
A transfiguração de ex-jogadores em comentaristas começou no rádio. Para citar dois exemplos: Gérson, o “Canhotinha de Ouro”, que após encerrar a carreira trabalhou na Rádio Jovem Pan, de São Paulo, e depois transferiu-se para a Rádio Tupi, do Rio; e Raul Plasma, goleiro da inesquecível equipe do Flamengo do início dos anos 80, também na Rádio Tupi. Por coincidência, ambos trabalharam na TV Globo depois da passagem inicial pelo rádio.
Nos comentários de futebol, a televisão se apropriou de outra personagem do rádio: o comentarista de arbitragem, que migrou da caixinha para a telinha e emprega os homens de preto que penduraram o apito. Se hoje são tão presentes quanto os ex-jogadores comentaristas, a ponto de criarem bordões populares (“A regra é clara!”), no rádio eles são um eco do passado, verbalizado pelos gritos (“goooollll leeeeegalll”), “bannnnnnnhhhheira”) de Mário Vianna na Rádio Globo do Rio. Os comentaristas de arbitragem deixaram de surfar nas ondas do rádio: o último do dial carioca, pela lembrança deste colunista, foi José Roberto Wright, em meados dos anos 90, na equipe de Luiz Penido na Rádio Nacional. Estreante na função, Wright, articulado e com vozeirão, destacou-se e pouco depois se transferiu para a TV Globo.
É claro que há, e sempre haverá, diferença na linguagem dos dois meios: a televisão, pelo recurso da imagem, prescinde de uma narrativa mais fortemente calçada no apelo emocional. A união da imagem com a palavra contrabalanceia os dois recursos, e a quem tiver dúvidas basta tirar o som da tevê e ligar o rádio durante uma partida de televisão. É por isso que, quando locutores esportivos de rádio passam para a televisão, perdem muito de sua carga emotiva, passional, dinâmica. (Será que é exatamente por não ter perdido por completo a embocadura do rádio, do qual é oriundo, que Galvão Bueno, goste-se ou não dele, consagrou-se como narrador? Há muito de rádio em suas narrações, assim como em Fausto Silva, o Faustão, ex-repórter esportivo da Jovem Pan e da Rádio Globo de São Paulo. Faustão faz rádio na tevê!)
“Fox Sport Rádio” hibridiza as duas linguagens, mas com predominância da radiofônica, daí o nome do programa: apresentador e comentaristas falam como se estivessem no rádio, e em vários momentos não olham para a câmera; e os repórteres que cobrem os clubes entram ao vivo pelo telefone, apenas com sua fotografia na tela a ilustrar-lhes a fala, sem imagens do local. Entrevistas também são feitas por telefone. Trata-se de uma novidade para preencher a grade de uma emissora segmentada no esporte.
* **

por Bruno Filippo
OUTUBRO/2012

Estou a esperar o fim do segundo turno das eleições municipais para escrever a continuação da coluna anterior, intitulada “Rádio, comunicação e política.”

COMMENTS

  • Sérgio Manchester

    O nome do ex-goleiro e comentarista é Raul Plassmann, e não Plasma.

  • Sidnei Amaral

    Bruno. Muito boa a tua análise e citações de grandes profissionais que fazem parte da história do rádio. Sempre contestei as afirmações sobre a fim do rádio. Afinal, o rádio sempre foi referência para as demais midias, além de ser considerado o veículo de maior credibilidade do país. Além disso, proporciona práticas incomparáveis e um incrível poder de improviso através de linguagem própria e única, seguida pela TV. Parabéns.

  • aureo ameno

    Parabens, amigo. Perfeitas suas colocações O Radio sofreu um baque com o advento da televisão mas acabou encontrando seu caminho vitorioso na trilogia música, esporte e noticia. Os dois podem e devem conviver, separadamene ou unidos. Tudo depende do talento dos profissionais em ação. Abraço.

  • Isabel de G. Monteiro Gomes

    Bruno, parabéns, contribuo ainda, tratando de comunicação, você refere a a linguagem do rádio e da televisão como retrato fiel da eloquência necessária para administrar este canal. Entendo que permeia o uso preciso da articulação, pausa inpiradora, prolongamentos nos finais de fala, nada mais que prosódia, ortoépia, fala figurada, aliás, a fala, a voz, tem frequencia e modulações diferenciadas, e neste aspecto quanto mais envolvente no timbre, e este a emoção, sugere ao ouvinte quer do rádio ou TV a imagem mental do fato e daí o efeito comunicativo acontecce, mas o diferencial está na administração do tempo e das palavras de valor, ou chavões, e outros quesitos importantes na narração. Neste caso a experiência do rádio é mais agregadora para estratégias que se utilizam a televisão e muito mais complexo.

  • Caro Bruno Filippo, já tive a oportunidade de lhe dizer o quanto aprecio o seu texto. De fato, usei-o no programa de rádio que produzo e apresento aqui na eParaná (emissora de rádio do sistema Rádio e Televisão Educativa do Paraná_http://rtve.pr.gov.br). Reitero aqui minha admiração pelo seu trabalho. Sejam bem-vindas, sempre, suas novas e pertinentes reflexões.
    Sua admiradora, Etel Frota

  • Amaury Santos

    Bruno, o texto é perfeito.
    Algumas lembranças de alguém “um pouco” mais velho: antes de Gerson e Raul, Ademir Menezes, craque da Copa de 50, foi, durante anos, comentarista da equipe do Orlando Baptista; antes de Mário Vianna (com dois nn) Alberto da Gama Malcher já dava seus picatos sobre a arbitragem; além dele Airton Vieira de Moraes (o Sanção) foi um dos sucessores do “titio”; treinadores como João Saldanha e Zoulo Rabelo também fizeram papel de comentaristas, assim como hoje Waldir Espinoza desenvolve na Globo.
    Agora, se sairmos do campo esportivo, ainda se faz muito Rádio na TV. Cada vez que um telejornal coloca uma foto ou um mapa com uma narração de um reporter em off, isto é Rádio. Qaundo o Chico Anisio, no Fantástico, aparecia de terno contanto uma história do Azambuja, aquilo era Rádio. E por aí vai.
    Grande Abraço

  • Bruno Filippo

    Oi ZIlda,

    Obrigado pela leitura de minha coluna.
    Depois de seu comentário, fui reler a coluna do Arnaldo Bloch publicada no último sábado no jornal “O Globo”, quando meu texto já estava pronto. (Foi publicado neste site na segunda-feira).

    Tentei procurar os motivos que a levaram a afirmar que eu me inspirei no Arnaldo Bloch – faltando-me, portanto, a originalidade.

    Embora falemos sobre rádio, o fazemos sob duas óticas bem distintas: Arnaldo Bloch discorre, de modo genérico, sobre a sobrevivência do rádio no mundo digital. E eu, especificamente sobre a relação histórica entre rádio e televisão, tomando como referência a estreia de programa de tevê numa emissora paga de esportes.

    A análise de Bloch – excelente, aliás – é muito parecida com a que escrevi para a edição impressa de “Rádio em Revista” que sairá em breve em homenagem aos 90 do rádio no Brasil. Esse texto foi enviado à editora Cristiane Jobim em setembro – um mês antes da coluna do jornalista de “O Globo”.

    Então, ZIlda, peço-lhe um favor: quando e se o ler, não afirme que plagiei o Arnaldo. Aliás, não faça afirmação sobre o que não é capaz de provar. E, como diria Marcus Aurélio, viva o rádio!

    Abraços,

  • Zilda Figueiredo

    Querido, você realmente se inspirou na coluna do ARNALDO BLOCH, do jornal O globo. Não chamo de plágio. Mas podia ser um pouco mais original.

Leave a Comment