Anos de Chumbo: Não Precisa Explicar, Eu Só Queria Entender

O ano era 1977.
Nessa época eu trabalhava na rádio Globo.
Eu tinha feito uma reportagem sobre um assalto praticado por argentinos
em Ouro Preto e, da sucursal do Globo, em Belo Horizonte, me
informaram que o ministério da Justiça “não tinha gostado” da matéria.
A sucursal lá foi invadida e depredada. Imaginei que a coisa ia
repercutir no Rio e não deu outra. Eu conversava no telefone com
Bartolomeu Brito que, na época, era do Jornal do Brasil. De repente,
uns homens armados invadiram a redação da rádio. Só deu tempo de
falar para o Bartô: “acho que vão me prender”.

Um cachação na minha nuca jogou o telefone para um lado e tive a
nítida impressão de que a minha cabeça e o resto do corpo tinham
sido lançados em sentidos opostos… No corredor, por onde eu
fui arrastado como um porco prestes a ser assado, cruzei com a
Maria Elena Ferraro, que era repórter. Até hoje lembro a cara e
perplexidade dela.

Me levaram para um lugar que eu não sabia direito onde ficava e
o interrogatório começou com uns gritos e socos na mesa de um
homem de meia-idade, que me pareceu ser militar. Quando eu já me
preparava para levar outro cachação, um homem entrou na sala e
falou alguma coisa ao pé do ouvido do que gritava comigo. O sujeito
saiu e voltou instantes depois, bem mais calmo: “era o almirante
Almeida Prado, perguntando por você”.

Como o comportamento do sujeito mudou após o telefonema do
almirante Almeida Prado, gravei bem o nome do oficial para colocá-
lo nas minhas orações. Logo em seguida, ligou um general, também
perguntando por mim e, para minha perplexidade, logo depois outro
general ligou pedindo que eu fosse preservado.

Aquilo me intrigou anos. Não sabia que tinha tanto prestígio nas
nossas Forças Armadas.

Anos depois encontrei Bartô numa cobertura em Teresópolis e
lembrei de como aquela nossa conversa tinha sido interrompida. “E
o Almirante Almeida Prado?”, perguntou Bartô. “Você o conhece?”,
perguntei ansioso. “Era eu”, disse ele sorrindo. Os outras telefonemas
também tinham sido dele. “Você acha que alguém ia duvidar ou
confirmar aquelas ligações?”, observou sorrindo.

Era uma época em que éramos presos sem qualquer motivo. Mas
também podíamos ser soltos sem qualquer explicação.

Por Maurício Menezes
Texto Rádio em Revista 1 (ago/12)

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