A Voz de Qual Brasil?

A voz do Brasil” foi veiculada pela primeira vez em 22 de julho de 1935. É lugar-comum afirmar que, nestas oito décadas, muita coisa mudou no Brasil. Mas a tentação de dizê-lo é irresistível porque a obrigatoriedade de transmissão de “A voz do Brasil”, não obstante as mudanças, permanece desde 1938. Deputados federais e senadores da atual legislatura, que se encerra em fevereiro, desperdiçaram chance única de fazer história e mostrar consonância com a realidade do país, ao obstruir a votação do projeto de lei de conversão da medida provisória que dava às emissoras de rádio liberdade de veicular o programa em outros horários.

Em junho, a presidente Dilma Roussef editou a Medida Provisória 648, que flexibilizava a transmissão do programa durante o período da Copa do Mundo. No Congresso, a comissão mista aprovou-lhe o texto com uma diferença significativa em relação ao original: a flexibilização não se restringiria à Copa, seria permanente, de modo que as emissoras, exceto as educativas, poderiam transmitir “A voz do Brasil” entre 19h e 22h. Era necessário que o plenário da Câmara e do Senado o aprovasse.

O principal argumento oposto à mudança reside no processo civilizador do programa. Por constituir-se no único meio de acesso à informação de comunidades que vivem em lugares remotos, “A voz do Brasil” não poderia ter horário alterado sem que houvesse danos à sociedade. No entanto, como país de dimensões continentais, o Brasil precisa incorporar as diferenças regionais às suas políticas públicas. Igualar o motorista preso no trânsito das grandes metrópoles ao morador de uma região longínqua, tratando-os como igualmente necessitados de informação oficial às sete da noite, é revelar uma posição mecanicista e autoritária do Brasil — a mesma que norteou a criação do programa. Há estados em que, pela diferença de fuso horário, sete da noite são, na verdade, cinco da tarde!

Ademais, os dados desfazem alguns mitos. Pesquisa do Ibope realizada em julho de 2013 revelou que “A voz do Brasil” é mais ouvido não no interior, mas nas grandes cidades: Grande São Paulo (9,4%), Porto Alegre (9%) e Belo Horizonte (7,9%). No fim de dezembro, a Pesquisa Brasileira de Mídia 2015, divulgada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, confirmou a verdade que todos já sabíamos: a maioria dos brasileiros (63%) não ouve “A voz do Brasil”. E 16% o ouvem somente uma vez por semana ou menos. Apenas 3% disseram ouvi-lo todos os dias da semana.

Sua flexibilização, para além de reconhecer as diferentes dinâmicas sociais, melhoraria a saúde financeira das emissoras de rádio, pois lhes permitiria veicular anúncios publicitários no horário do rush, quando as pessoas estão retornando do trabalho. Não se trata de enfraquecer “A voz do Brasil”, nem de eliminá-la — mas de adaptá-la às muitas realidades brasileiras.

Bruno Filippo é jornalista e sociólogo

obs: Esse texto foi publicado na edição impressa do jornal O Globo http://oglobo.globo.com/opiniao/a-voz-de-qual-brasil

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